| DA "GUERRA" À UNIÃO |
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Autor: Joel Haroldo Baade Resumo: Uma abordagem histórica da caminhada da Associação Evangélica de Comunidades de Santa Catarina e Paraná e do Sínodo Evangélico-Luterano de Santa Catarina, Paraná e Outros Estados do Brasil até a sua fusão e formação do Sínodo Evangélico Luterano Unido. Introdução A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) é uma Igreja que se formou a partir do protestantismo de imigração. Os primeiros imigrantes protestantes chegaram ao Brasil em 1824 e foram sucedidos por outros milhares nas décadas seguintes. Imigrantes protestantes vieram para o Brasil até mesmo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Juntamente com os imigrantes, ou logo após, vieram os primeiros pastores, provenientes de diferentes instituições eclesiásticas alemãs. Essa diversidade dificultou a formação de agremiações eclesiásticas no Brasil. A primeira iniciativa para a formação de um sínodo aconteceu no Rio Grande do Sul (RS) em 1868, mas este primeiro sínodo não durou muito tempo. De modo que, em 1886, fez-se uma nova tentativa, constituindo o Sínodo Rio-Grandense (Riogr.), que veio a se consolidar. Em 1905, os pastores enviados pela Caixa de Deus Luterana para as regiões de Santa Catarina (SC) e Paraná (PR) a partir de 1897 formaram o Sínodo Evangélico-Luterano de SC, PR e outros Estados do Brasil (Sín. Evang. Lut.). A terceira iniciativa de reunião de comunidades se deu também em SC, em 1911. Os pastores de diferentes instâncias eclesiásticas alemãs, quase que em oposição ao Sín. Evang. Lut., e que já haviam se reunido numa Conferência Pastoral (Conf. Past.) desde 1888, fundaram a Associação Evangélica de Comunidades de Santa Catarina (Assoc. Evang. de Comunidades). E ainda um quarto empreendimento sinodal aconteceu em 1912 na região central do Brasil, onde se formou o Sínodo das Comunidades Evangélicas do Brasil Central (Sín. Br. Centr.). Três desses sínodos possuíam um caráter confessional unido, são eles: o Sín. Riogr., o Sín. Br. Centr. e a Assoc. Evang. de Comunidades; e apenas um deles, o Sín. Evang. Lut., era expressamente de confissão luterana. Esses quatro sínodos, inicialmente, seguiram caminhos independentes e constituíram em 26 de outubro de 1949 a Federação Sinodal, que em 1954/1962 passaria a se chamar “Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil”. No entanto, a aproximação dos quatro sínodos não foi um processo rápido e, muito menos, pacífico. Muito pelo contrário, ele se deu de forma lenta e gradual. Na década de 1930, a exemplo do que aconteceu na Alemanha, se procurou refletir no Brasil, sob bases ideológicas da germanidade/germanismo, a criação de uma Igreja nacional. Segundo Wachholz, “a criação de uma Igreja Evangélica Alemã em 1933, contudo, foi o fato que impulsionou definitivamente as reflexões em torno da aproximação dos sínodos no Brasil. O grande perigo que se evidenciaria nesta aproximação era a base sobre a qual ocorreria. Havia o perigo de o elemento étnico se sobrepor ao confessional ou a tradição unionista deslocar a ênfase da confissão sobre o cristianismo prático.”[1] Desse modo, procura-se refletir nesse trabalho a lenta aproximação entre a Assoc. Evang. de Comunidades e o Sín. Evang. Lut., que coexistiram em SC e PR por décadas, integraram-se na Federação Sinodal em 1949, mas somente em 1962 fundiram-se no Sínodo Evangélico Luterano Unido (Sín. Evang. Lut. Unido). A relação entre esses dois sínodos foi, muitas vezes, bastante conflituosa. O estopim para as divergências quase sempre foi a confessionalidade, sendo que o Sín. Evang. Lut. insistia na supremacia da confissão luterana e rejeitava categoricamente qualquer união, e a Assoc. Evang. de Comunidades tinha caráter confessional unido. Assim, caberá verificar qual a relevância das questões confessional e étnica e ainda atentar para outros elementos que contribuíram no processo de aproximação entre os dois sínodos. Para alcançar esse objetivo, o trabalho se baseará nas pesquisas feitas até agora sobre o assunto. Os resultados alcançados serão comparados às informações noticiadas nos jornais sinodais: Mensageiro do Evangelho, da Assoc. Evang. de Comunidades; e no Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt [Boletim Evangélico-Luterano para as Comunidades], do Sín. Evang. Lut. Entretanto, no Arquivo Histórico da IECLB, ao qual se teve acesso, estavam disponíveis somente as edições de janeiro de 1936 a junho de 1938 do Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt. Além disso, devido às limitações de tempo e espaço para uma monografia de conclusão, puderam ser contempladas somente as edições de janeiro de 1961 até dezembro de 1962 do jornal Mensageiro do Evangelho, que comunicam a respeito das negociações sobre a fusão entre a Assoc. Evang. de Comunidades e o Sín. Evang. Lut. para a formação do Sín. Evang. Lut. Unido. Caberá buscar as demais edições e contemplá-las num trabalho futuro. Inicialmente, serão abordadas as histórias da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut., oferecendo-se um esboço da caminhada desses dois sínodos desde a sua formação até 1932. O ano de 1932 é referência, pois neste ano acontece a filiação do Sín. Evang. Lut. à Federação Eclesiástica Evangélica Alemã (Fed. Ecles. Evang. Alemã), o qual passa a se denominar “Igreja Luterana Alemã no Brasil” a partir de então. Esse acontecimento representou uma reviravolta na caminhada desse sínodo, mas também na história da Assoc. Evang. de Comunidades, sendo que, a partir daí, iniciar-se-á um longo processo de aproximação entre as duas entidades eclesiásticas em SC. Será importante também abordar brevemente as ênfases confessionais de cada um dos sínodos, visto que a confessionalidade é um elemento importante, senão até fundamental, na discussão acerca da fusão dos dois sínodos. Por fim, apresentar-se-á o relacionamento entre os dois sínodos que, muitas vezes, foi conflituoso. No segundo capítulo, “1932-1962: da ‘Guerra’ à União”, caberá discutir a caminhada da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut. no período posterior a 1932. Pergunta-se na exposição pelas influências dos regimes políticos totalitários etnicistas, alemão e brasileiro, na formação da consciência de uma Igreja nacional no Brasil. Ou seja, como se chegou “Da ‘Guerra’ à União”? Quando se fala em “guerra”, tem-se em mente não apenas uma, mas três guerras. A primeira delas é a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que provocou uma profunda reflexão na Igreja Mundial; outra é a “guerra” dos imigrantes frente à nacionalização da Era Vargas (décadas de 1930 e 1940); e a terceira “guerra” é o conflito entre a Assoc. Evang. de Comunidades e o Sín. Evang. Lut. E quando se fala em “União”, faz-se referência à criação da Federação Sinodal e à criação do Sín. Evang. Lut. Unido. I – Formação da associação EVANGÉLICA DE COMUNIDADES e do Sínodo Evangélico-Luterano e A situação de ambos até 1932 Iniciar-se-á a abordagem pela Assoc. Evang. de Comunidades pelo fato de os primeiros pastores em SC pertencerem ao grupo que mais tarde (1911) iria constituir esta Associação. 1.1 Associação de Comunidades Evangélicas Alemãs de Santa Catarina 1.1.1 Formação Muito antes da fundação da Assoc. Evang. de Comunidades (1911) foram constituídas comunidades evangélicas em SC. Assim, por exemplo, existe desde 1848 a comunidade de Santa Isabel, mas que receberia um P. somente em 1862. E, em 1857, foi fundada a comunidade de Blumenau, para a qual veio, ainda no mesmo ano, o P. Oswald Hesse[2]. A Conf. Past. pode ser caracterizada como a semente organizacional que viria a facilitar o surgimento da Assoc. Evang. de Comunidades. O início das atividades da Conf. Past. se dá com o encontro dos pastores Heinrich Runte (Badenfurt – Assoc. Evang.), Wilhelm Lange (Dona Francisca – Assoc. Evang.) e Johannes Dehmlow (Estrada da Ilha – Assoc. Evang.), em novembro de 1888, em Estrada da Ilha[3]. Em 1890, havia 10 pastores em Santa Catarina que se reuniram em dois grupos (distrito Dona Francisca e distrito Blumenau) para debaterem sobre questões de disciplina eclesiástica, do sistema escolar e, sobretudo, sobre a fundação de um sínodo. Devido à composição bastante heterogênea de pastores e comunidades, no entanto, isso ainda não foi possível. Nem mesmo a Conf. Past., fundada formalmente em 2 de maio de 1896, foi capaz de congregar duradouramente todos os pastores[4]. A demora para que se formasse uma associação de comunidades tem a sua razão de ser. Segundo um artigo no jornal da Assoc. Evang. de Comunidades Mensageiro do Evangelho de 1961, no qual se faz uma retrospectiva histórica da formação da Assoc. Evang. de Comunidades, são apresentados basicamente três motivos: 1) a origem diversa dos imigrantes e a atuação de diferentes instâncias alemãs em SC sem qualquer coordenação; 2) os pastores que vieram para SC procederem de diferentes associações eclesiásticas; 3) as dificuldades de locomoção pela ausência de ligações naturais entre os centros de colonização devido ao relevo montanhoso[5]. Também problemas entre comunidades e seus clérigos dificultaram esse empreendimento. Como exemplo, pode-se citar Teresópolis, onde um movimento de despertamento, liderado pelo professor Hausmann, provocou a divisão da comunidade e, após uma investigação pelas autoridades, que temiam uma reedição do levante dos mucker em SC, desencadeou a partida do clérigo da comunidade, o P. Dietegen Flury. A diversidade e as dificuldades para congregar todos sob uma mesma entidade aumentava ainda mais pela atuação da Caixa de Deus no norte e dos missurianos no sul de SC nessa época. Havia até concorrência entre pastores das diferentes instâncias alemãs por comunidades, como ocorreu, por exemplo, em Palhoça. O diácono Christian Zluhan (Santa Isabel/Teresópolis), que também atendia a região de Palhoça, teria confirmado até crianças de 12 anos somente para evitar que elas fossem confirmadas pelo P. Schulz (Florianópolis/Palhoça) que passaria a assistir a região[6]. Além de dificultarem a fundação de um sínodo, tais acontecimentos prejudicavam grandemente a organização de qualquer trabalho eclesiástico em SC. Em 1905 o P. Hermann Faulhaber (1863-1920, atuante em Blumenau entre 1889 e 1906) propôs ao CSEB [Conselho Superior Eclesiástico de Berlim] que enviasse um mediador para os conflitos. Neste contexto, em 1907 chegaria o P. Dr. Martin Braunschweig, secretário-geral da Sociedade Gustavo Adolfo da Alemanha, que participou da Conferência Pastoral de 14 de agosto daquele ano, como representante da Igreja da Prússia [Igr. Territorial Evang. da Prússia]. Ele, contudo, viu frustrado o seu desejo da fundação de um sínodo naquela ocasião[7]. Em correspondência ao Superior Conselho Eclesiástico Evangélico (Sup. Cons. Ecles. Evang.)[8], o prepósito Dr. Martin Braunschweig sugere como medidas imediatas a ampliação da Conf. Past. a um sínodo e a visita anual de um representante do Sup. Cons. Ecles. Evang. às comunidades de SC. Assim, em 26 de agosto de 1909, ocorre em Blumenau uma discussão preliminar sobre a fundação de uma associação de comunidades, ficando uma comissão responsável pela elaboração de estatutos com base nos da Associação de Comunidades do Rio da Prata. Após terem sido elaborados, os estatutos deveriam ser apresentados às paróquias[9]. O trabalho da comissão foi apreciado em 20 de agosto de 1910, em Timbó, quando também ainda foram feitas as devidas alterações estatutárias. E, em 6 de agosto de 1911, em Blumenau, ocorreu a Assembléia Constituinte da Assoc. Evang. de Comunidades Alemãs de SC, com a presença de 17 representantes leigos de nove comunidades e oito pastores[10]. Como o próprio nome já o indica, não se trata de um sínodo na plena acepção da palavra, pois a Assoc. Evang. de Comunidades não era possuidora de responsabilidade eclesiástica, mas o seu objetivo era o de “despertar e fortalecer o sentimento de comunhão das comunidades evangélicas (...) visar, na medida do possível, o uso uniforme de formas litúrgicas, livros de canto e de ensino religioso (...)”. As decisões, no entanto, na prática, iriam acontecer na Conf. Past.[11]. 1.1.2 Da Primeira Guerra até 1932 A segunda década de existência da Assoc. Evang. de Comunidades foi marcada por uma profunda crise desencadeada pela relação mal resolvida entre pastores e comunidades e com o Sín. Evang. Lut.[12]. O P. Lic. Ewald Schröder, eleito presidente da Conf. Past. e vice-presidente da Assoc. Evang. de Comunidades em 1925, descreve a situação desta última como perigosa, a qual teria sido desencadeada pela decisão da Conf. Past. de exigir das comunidades subsistências mínimas para os seus obreiros, mas que eram maiores que os vencimentos no Sín. Riogr. Soma-se a isso também o fato de haver uma crise econômica com a crescente queda dos preços dos produtos coloniais. Além disso, havia ainda muita desconfiança em relação à direção da Igreja, pois faltaria uma campanha de consciência da necessidade de uma cooperação global das comunidades. Outro problema da Assoc. Evang. de Comunidades era o tamanho de suas paróquias, o que impossibilitava a realização de um trabalho mais próximo das bases comunitárias[13]. A situação começou a mudar um pouco a partir de 1926. Quase todos os obreiros titulares haviam sido trocados; o território da Assoc. Evang. de Comunidades foi subdividido em distritos a partir de agosto de 1926; havia uma confiança e amparo maior em relação ao representante permanente do Sup. Cons. Ecles. Evang., possibilitando que os pastores não se sentissem mais tão isolados em relação a Blumenau, mas como membros ativos da Assoc. de Comunidades[14]. Em 1926, na Conf. Past., também é decidida a ampliação da Assoc. Evang. de Comunidades para sínodo[15]. Na verdade, havia na Assoc. Evang. de Comunidades um grande desejo de se tornar sínodo nos mesmos moldes do Sín. Riogr., mas, ao mesmo tempo, não havia muita disposição em dar ao elemento leigo maiores responsabilidades. Também não se queria que a diretoria do sínodo viesse a ter mais poderes que a Conf. Past. Faltaria ainda maturidade à Assoc. Evang. de Comunidades, e apostou-se no P. Lic. Ewald Schröder para transplantar o “espírito rio-grandense para SC”[16]. As idéias do P. Schröder de subdividir as paróquias excessivamente grandes, no entanto, não era vista com bons olhos pelos pastores enviados do Seminário para a Diáspora da Igr. Territorial Evang. da Prússia. Entre eles encontrava-se o P. Leo von Pritzbuer, de Itoupava, que incorporou a comunidade de Fortaleza a sua paróquia em 1926. Começaram, assim, a haver desentendimentos entre Pritzbuer e a diretoria da Conf. Past., que culminaram com uma carta do P. Schröder ao Sup. Cons. Ecles. Evang., pedindo a transferência de seu estagiário, que se colocara ao lado de Pritzbuer. O representante permanente, P. Erwin Hübbe (1876-1934)[17], entretanto, via as causas da confusão na diretoria da Conf. Past., a qual foi recriminada por escrito. Quando o P. Schröder recebeu essa recriminação, entendeu que não possuía mais a confiança do prepósito Hübbe e renunciou[18]. Por vontade de Hübbe, o P. Hermann Dürre foi eleito novo presidente da Assoc. de Comunidades e, como novos membros da diretoria, o P. Leo von Pritzbuer (Itoupava), o P. Gustav Berchner (Curitiba) e o P. Erich Betzler. As decisões, contudo, passaram a serem tomadas somente por Dürre e Pritzbuer. Começou a instalar-se, dessa forma, um clima de desconfiança. A situação piorou ainda mais com a eleição do P. Friedrich Richter para a presidência da Conf. Past. em 2 de setembro de 1929, o qual não julgava Pritzbuer capaz de exercer qualquer função. Chegou-se, nesse ponto, a uma separação entre a Assoc. Evang. de Comunidades e a Conf. Past., que, até agora, haviam caminhado lado a lado[19]. A situação somente foi amenizada pela intervenção do prepósito Gottlieb Funcke (1929-1936), ficando decidido na assembléia extraordinária da Assoc. Evang. de Comunidades, em 20 de novembro de 1929, que dois membros da Conf. Past. fariam parte da diretoria da Assoc. Evang. de Comunidades ex officio e a direção e administração da Assoc. Evang. de Comunidades ficariam a cargo de sua diretoria. Em meados de 1930, o P. Friedrich Richter se manifestou em conformidade com essa decisão, dizendo que a Conf. Past. visaria a apenas permear a vida da Assoc. Evang. de Comunidades com forças teológicas e religiosas. Nesse sentido, decidiu-se realizar uma campanha missionária a nível distrital com “dias de Igreja abertos”[20]. Em novembro de 1930, o P. Pritzbuer redigiu uma carta circular exigindo a equiparação da Assoc. Evang. de Comunidades a um corpo administrativo da Igr. Territorial Evang. da Prússia – algo parecido com um sínodo –, a redução do representante permanente a um revisor da instância central e o aumento do mandato do presidente da Assoc. para proporcionar uma continuidade dos trabalhos. Essa carta foi classificada como “agitadora” pelo prepósito Funcke e seria motivação suficiente para a demissão imediata de Pritzbuer. O Cons. Ecles. Evang. quis, no entanto, que Pritzbuer permanecesse na presidência da Assoc. Evang. de Comunidades até a assembléia de maio de 1931, na qual deveria renunciar espontaneamente para então ser eleito um novo presidente[21]. A partir da data em que foi divulgada a carta de Pritzbuer, pode-se observar claramente a formação de dois partidos eclesiásticos dentro da Assoc. Evang. de Comunidades: o partido da autonomia, que defendia as idéias de Pritzbuer; e o partido de ordem, encorajado por Funcke, que serviu-se do influente membro leigo da diretoria da Associação, o blumenauense Müller-Hering, para visitar as comunidades, motivando-as para a eleição do P. Wilhelm Scheerer (Blumenau) como novo presidente, o que também veio a se concretizar na assembléia da Assoc. de Comunidades em 18 de maio de 1931, após uma série de reuniões e desentendimentos entre os dois partidos, mas também discordâncias internas dos próprios partidos. A Conf. Past. elegeu o P. L. Grau seu presidente e como vice o major Vorberg, que fez oposição à candidatura do P. Scheerer para a presidência da Assoc. Evang. de Comunidades[22]. A assembléia de maio de 1931 certamente é um marco na história da Assoc. Evang. de Comunidades, pois, citando Funcke: Justamente na grave crise, pela qual passou a Associação, (...) pela primeira vez a massa dos representantes das comunidades percebeu de modo efetivo a importância da Igreja em seu todo neste país e de sua ligação com a grande pátria-mãe alemã. O abalo passageiro da Associação das Comunidades certamente despertou, em face do desenrolar satisfatório e edificante da assembléia, em todas as pessoas bem intencionadas um sim consciente e alegre à Igreja Evangélica Alemã em formação neste país[23]. Em 1932, a Conf. Past. optou por delegar a realização de futuros “dias da Igreja públicos” à Assoc. de Comunidades, com a intenção de fortalecer a sua autoridade. Além disso, solicitou ao Sup. Cons. Ecles. Evang. que a regulamentação do provimento de vagas para pastores, candidatos ao pastorado e diáconos fosse delegada ao representante permanente em comum acordo com a diretoria da Assoc. Evang. de Comunidades[24]. No mesmo ano, “a Assoc. Evang. de Comunidades também concluiu o projeto de uma ‘Ordem da Vida Eclesiástica’, que pode ser considerado marco no caminho para a formação da Igreja.”[25] A virada de ano de 1932/33 representa certa cesura na história da Assoc. Evang. de Comunidades, porque, a partir de janeiro de 1933, o Sín. Evang. Lut. estava associado à Fed. Ecles. Evang. Alemã, que, por sua vez, trabalhava em conjunto com o Sup. Cons. Ecles. Evang., de modo que agora passaram a existir estreitas ligações na direção da Igreja, que, na emergente Igreja Evangélica Alemã [Igr. Evang. Alemã], em breve passaria para as mãos do Departamento do Exterior [Depart. do Exter.][26]. Houve a intenção de que a Assoc. Evang. de Comunidades se filiasse à Fed. Ecles. Evang. Alemã, mas as negociações foram interrompidas pelos acontecimentos de 1933, quando o partido nacional-socialista chegou ao poder na Alemanha[27]. Em 1º de abril de 1936, a Assoc. de Comunidades e também o Sín. Brasil Central, até então ligados ao Sup. Cons. Ecles. Evang., são subordinados ao Depart. do Exter. da Igr. Evang. Alemã[28]. 1.1.3 Características Confessionais Inicialmente, a Assoc. de Comunidades não definiu a sua confessionalidade em seus estatutos, apenas indicou indiretamente que se relacionava com a Igr. Territorial Evang. da Prússia (de caráter confessional unido!). Predominava nas comunidades, geralmente, a confissão dos seus respectivos pastores ou da autoridade eclesiástica a qual estavam subordinadas[29]. A Associação de Comunidades somente definiu mais claramente a sua orientação confessional em 1933, declarando que a Confessio Augustana invariata e o Catecismo Menor de Lutero seriam os seus documentos normativos[30]. 1.2 O Sínodo Evangélico Luterano de SC, PR e outros Estados do Brasil 1.2.1 Formação Em 1891, a Associação Luterana da Caixa de Deus (Lutherischer Gotteskasten), em alusão a Mc 12.41 na tradução alemã de Lutero e que se entendia como preservadora do luteranismo em todo o mundo, começou a se interessar pela assistência aos luteranos no Brasil. Esse interesse foi desencadeado, entre outros motivos, pelo grande contingente de teuto-russos que emigraram para o Brasil. Além disso, segundo Wachholz, os contatos que o P. Johann[es] Friedrich Brutschin (1844-1919) manteve com a Caixa de Deus Luterana após ter rompido as relações com o Sín. Riogr. no final da década de 1880 também contribuíram para a vinda de pastores luteranos[31]. Em 1896, os assuntos que diziam respeito à obra brasileira foram confiados à Caixa de Deus Bávara, “por quem também seria assumida e continuada”[32]. A partir do final de 1897, começaram a ser enviados pastores luteranos ao Brasil, sendo o primeiro o P. Karl Otto Kuhr (Estrada da Ilha)[33]. Em 1898, foram enviados ainda os pastores Fritz Bühler (Joinville) e Carl Bergold (Dona Francisca), respectivamente para as comunidades de Joinville e Dona Francisca, a qual exigiu claramente que “o P. deveria exercer seu ofício segundo o rito luterano”[34]. Todos os pastores enviados pela Federação das Associações Luteranas da Caixa de Deus eram automaticamente membros do Sín. Evang. Lut., que era uma união de pastores que passou a se reunir a partir de meados de 1899. Essa ordem compromissiva possibilitou que se formasse uma rede crescente de pastores luteranos, que mais tarde levariam suas comunidades para dentro do Sín. Evang. Lut.[35]. No início de 1904, propôs-se, por ocasião das celebrações do 25º jubileu de existência da Caixa de Deus da Baixa Saxônia, a fundação de um “sínodo de comunidades” luterano no Brasil. Essa sugestão foi aceita prontamente pela Conf. Past. em setembro de 1904, a qual elaborou estatutos que seriam encaminhados à Caixa de Deus e aos pastores ausentes para apreciação. Cada P. assumiu o compromisso de debater a questão da fundação de um sínodo em sua respectiva comunidade. Para auxiliar a convencer as comunidades foi elaborado ainda, em janeiro de 1905, pelo P. J. Gottfried Riegel (Estrada da Ilha), um panfleto com informações mais precisas sobre o sínodo a ser constituído[36]. Por iniciativa dos pastores enviados pela Associação Caixa de Deus, foi fundado, em 9 de outubro de 1905, na igreja de Estrada da Ilha, o Sín. Evang. Lut. [“Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina, Paraná e outros Estados do Brasil”], ao qual aderiram, inicialmente, cinco comunidades, onze pastores e um professor, sendo o seu primeiro presidente o P. Karl Otto Kuhr[37]. A aceitação do Sín. Evang. Lut. não foi geral entre as comunidades, muito pelo contrário, 30 aceitavam serem assistidas por seus pastores, mas não queriam aderir logo ao sínodo. Um dos receios em relação ao sínodo era o de que se tratava de um sínodo de pastores, pois é contra essa acusação que o P. Riegel se defende através de artigo datado de 1906 no Evangelisch-lutherisches Gemeindeblatt [Boletim Evangélico-Luterano para as Comunidades][38]. O Sín. Evang. Lut. se expandiu fortemente até 1914, sendo uma das principais causas para isso a política de pessoal da Caixa de Deus, que enviava pastores auxiliares para atuarem em áreas com grande concentração de trabalho até que estes pudessem encontrar as suas próprias paróquias[39]. Não era de costume da Associação da Caixa de Deus enviar pastores somente quando o seu emprego em uma comunidade estava certo, mas os obreiros eram enviados na esperança de que encontrassem um lugar para trabalhar. Em SC, essa estratégia rendeu bons frutos. Os pastores mais experientes iam à procura de novos campos de trabalho, como é o caso do P. Karl Otto Kuhr, que se dirigiu ao Paraná (PR), iniciando um trabalho em Castro. Como P. de Estrada da Ilha que era, posteriormente, foi substituído nesta comunidade pelo P. recém enviado Gottfried Riegel[40]. 1.2.2 Da Primeira Guerra até a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã (1932) Durante a Primeira Guerra, a situação no Sín. Evang. Lut. não foi diferente da dos outros sínodos. Em SC e no PR, todas as escolas comunitárias foram fechadas e as atividades eclesiásticas bastante limitadas. A pregação foi proibida; contudo, foram permitidas celebrações litúrgicas. As comunidades não ficaram indiferentes ao que acontecia na Europa. Houve “horas de oração de guerra” nas quais se arrecadava “dádivas de horas de oração de guerra” em prol da Cruz Vermelha Alemã. Assim como nos outros sínodos, voltou a despertar a consciência nacional alemã. A guerra, no entanto, foi vista como um castigo para o povo alemão, que havia se desviado da sua essência, que é a cultura alemã fruto da Reforma do século XVI, baseada no Evangelho da graça de Deus redescoberto por Lutero[41]. A política de cobrar taxas menores das comunidades pelos serviços eclesiais levou o Sín. Evang. Lut. a uma crise no período após a Primeira Guerra Mundial, pois antes sobrevivia com os subsídios da Caixa de Deus alemã. Assim, a primeira metade da década de 20 é marcada por intensas negociações do Sín. Evang. Lut., as quais visavam inclusive a sua filiação ao luteranismo norte-americano, sendo que a Igreja-mãe alemã patenteou ao luteranismo americano possibilidades de ajuda e tomada de influência no Brasil[42]. Em 1923, na Conf. Past. em Joinville, foi decidida a subdivisão do Sín. Evang. Lut. em dois distritos: Distrito-Norte, com Espírito Santo (ES) e São Paulo (SP); e Distrito-Sul, com SC e PR. Um dos motivos para essa decisão foi a questão financeira, pois assim cada distrito poderia solicitar auxílio a diferentes sínodos norte-americanos[43]. Além disso, decidiu-se requerer aos dois sínodos norte-americanos de Ohio e Iowa a formação de uma Conf. Sinodal. Além da situação financeira precária, a situação de total insegurança jurídica dos pastores foi motivação para a busca de tais parcerias. Os pastores luteranos, mesmo retornando para a Alemanha, não poderiam exercer as atividades pastorais por terem somente uma formação missionária[44]. Entretanto, os subsídios dos sínodos norte-americanos e o auxílio da Caixa de Deus alemã, retomado em 1925, eram insuficientes. Como a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã era rejeitada de todas as formas, a Conf. Past. de 22 de agosto de 1927 decidiu filiar-se à Igreja Luterana da Baviera e solicitou à Caixa de Deus que intermediasse as negociações. Esta aceitou o pedido com a condição de que a autonomia das comunidades fosse preservada e que ela não fosse excluída do seu trabalho no Brasil[45]. A Igreja Luterana da Baviera, entretanto, precisava ater-se aos critérios de filiação da Fed. Ecles. Evang. Alemã, à qual estava ligada, de modo que a filiação do Sín. Evang. Lut. não se concretizou. A Fed. Ecles. Evang. insistia que as restrições do Sin. Evang. Lut. feitas a ela eram meramente de natureza eclesiástica interna e diziam respeito a questões do status confessional, o que lhe estava assegurado por lei. A negativa da Igreja da Baviera fez com que o Sín. Evang. Lut. buscasse estabelecer uma ligação com a United Lutheran Church in América (ULCA)[46]. Segundo Dreher, havia interesse por parte do Sín. Evang. Lut. em filiar-se à Fed. Ecles. Evang. Alemã, mas isso foi categoricamente descartado pela Caixa de Deus com a fundamentação de que isso colocaria em perigo o caráter luterano do sínodo[47]. O que levou o Sín. Evang. Lut. a filiar-se à Fed. Ecles. Evang. Alemã e não à ULCA ainda não está suficientemente esclarecido. Segundo Martin Dreher, os acontecimentos seguiram esse rumo devido às “fortes pressões exercidas da Alemanha através do Ministério de Relações Exteriores, da Direção do Seminário de Missão de Neuendettelsau e pela Caixa de Deus da Baviera”, que ameaçavam levar a uma cisão do sínodo[48]. Também o indeferimento do pedido de filiação à Igreja Territorial Bávara, em 1930, encaminhou o sínodo à Fed. Ecles. Evang. Alemã, pois a federação teria muito melhores condições de oferecer auxílio[49]. Prien diz, além disso, que “é preciso tomar em consideração a enorme pressão financeira, que favorecia uma rápida filiação à ULCA”, sendo que e Federação Martim Lutero (antiga Caixa de Deus) não repassava as subvenções já há algum tempo[50]. Entretanto, Prien considera como decisiva a intervenção do Dr. Pamperrien (vice-cônsul alemão em Florianópolis), que substituiu o cônsul Aeldert em SC no final de 1931. Pamperrien teria encontrado a documentação da filiação do Sín. Evang. Lut. à ULCA e solicitado aos pastores do Sín. Evang. Lut., através de uma circular, que cogitassem uma consulta à Fed. Ecles. Evang. Alemã se não haveria possibilidades de filiação em condições suportáveis. Para as negociações foi encarregado, ou autonomeou-se procurador da diretoria sinodal, o representante da Fed. Ecles. Evang., prepósito Funcke. O contrato de filiação foi assinado em 30 de janeiro de 1933 em Jaraguá, no qual ficou assegurado, entre outras coisas, que a base confessional do sínodo ficaria inteiramente preservada, inclusive as ordens de cunho confessional no prontuário litúrgico, no hinário e catecismo e a intermediação de pastores evangélico-luteranos[51]. Por ocasião da filiação, o Sín. Evang. Lut. mudou seu nome para “Igreja Evangélica Luterana Alemã no Brasil”[52]. Como visto, as vias pelas quais o Sín. Evang. Lut. filiou-se, em janeiro de 1933, à Fed. Ecles. Evang. Alemã foram um tanto obscuras, provocando uma série de violentas tensões. Primeiramente “entre a Fed. Martinho Lutero e a Fed. Ecles. Evang. Alemã, depois tensões internas no Sín. Evang. Lut. e, em terceiro lugar, entre a Fed. Martinho Lutero e o Sín. Evan. Lut.”[53] Contudo, isso significou uma virada histórica para o sínodo, pois, a partir daí, iniciou-se uma caminhada de desligamento e emancipação do Sín. Evang. Lut. em relação à Caixa de Deus. Mas, acima de tudo, a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã iniciaria o longo processo de aproximação com os sínodos unidos, o fortalecimento do elemento luterano nestes, levando finalmente à confederação[54]. Dreher chama a atenção para o fato de que, com a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã, “encerra-se um período na história desse sínodo. Um sínodo brasileiro, com comunidades brasileiras, passou a ser um ‘sínodo no exterior’ (Auslandssynode) com ‘comunidades no exterior’ (Auslandsgemeinden).”[55] Afirmação da qual Prien, entretanto, discorda categoricamente. O Sín. Evang. Lut. não teria tido autonomia alguma, pois dependia inteiramente da subvenção de Igrejas do exterior tanto no que concerne às finanças quanto no que diz respeito ao suprimento com pastores, e estava dividido organizacionalmente quase em um distrito norte e um distrito sul, com direções eclesiásticas que atuavam conjuntamente apenas em termos restritos[56]. Já as entidades que se filiaram à Fed. Ecles. Evang. Alemã viram o fato com bastante otimismo, fazendo com que os sínodos quisessem mais e mais ser uma Igreja autônoma no Brasil, tratava-se de um reinício cheio de esperanças[57]. 1.2.3 Características Confessionais Os pastores enviados pela associação Caixa de Deus formavam-se nos seminários de Neuendettelsau, na Baviera, e Hermannsburg, na Baixa Saxônia[58]. As associações como a Caixa de Deus representavam a corrente luterana do Movimento de Despertamento[59]. Para o Sín. Evang. Lut. valia como normativo [...] a Sagrada Escritura e os Escritos Confessionais da Igreja Evangélica Luterana, quais sejam: os três Símbolos Ecumênicos, a Confissão de Augsburgo inalterada, a Apologia da mesma, os Catecismos Maior e Menor de Lutero, os Artigos de Esmalcalde e a Fórmula de Concórdia[60]. Na primeira edição do boletim do sínodo, o seu editor, o P. Riegel, menciona o que consta nos estatutos como sendo o fundamento do sínodo. E seria em nome de Deus que o sínodo levanta essa bandeira. Já no segundo volume do boletim, afirma claramente contra que é levantada a bandeira ao dizer: “rejeitamos qualquer união”. Para Riegel, união seria a mesma coisa que protestantismo mixórdio, confusão e sectarismo[61]. Aos pastores do Sín. Evang. Lut. cabia, acima de tudo, a obediência à Palavra de Deus, que é identificada com a confissão luterana. Isso se mostra no fato do P. Roesel permanecer em Itoupava com o apoio dos colegas pastores, mesmo após ser formal e corretamente demitido pela comunidade. Segundo Prien, “está claro que no Sín. Evang. Lut. a confissão luterana era entendida como constitutiva para a Igreja (...) [e] o ministério era considerado instituição divina unilateralmente em contraposição à comunidade.”[62] Que a confissão luterana é constitutiva para a Igreja está muito evidente num artigo do P. Wilhelm Lange de 30 de julho de 1905, no qual comenta o trabalho da Caixa de Deus Luterana no Brasil. Para o P. Lange vale o seguinte: “Toda comunhão eclesial [Kirchengemeinschaft] é comunhão confessional [Bekenntnisgemeinschaft]. A confissão não determina somente o caráter da comunidade individual, mas une as comunidades numa Igreja global [Gesamtkirche] e, simultaneamente, as isola [abschliessen] das demais.”[63] No panfleto elaborado pelo P. Riegel, citado acima, no qual se posiciona sobre as reservas em relação ao sínodo, apresentando os seus objetivos, no entanto, não é mencionada a confissão luterana, apenas diz-se que o sínodo tem por objetivo a “divulgação do Reino de Deus”. Outros documentos, assim diz Prien, permitem afirmar que isso era a mesma coisa que a “divulgação de comunidades confessionalmente luteranas”. Mas a missão do Sín. Evang. Lut., ao dirigir-se aos “companheiros na fé e compatriotas”, “referia-se ao mesmo grupo-alvo do trabalho dos ‘pastores unidos’, isto é, também ela era restrita etnicisticamente.”[64] No entanto, nas “Instruções Ministeriais” dadas ao P. Otto Kuhr por ocasião do seu envio apenas consta “nossos companheiros na fé”. E já na Conferência de Delegados em 1892, na qual foram prestados esclarecimentos sobre a situação dos luteranos no Brasil, “não se falou apenas dos luteranos teutos, mas também dos luteranos da Suécia, da Boêmia, da Hungria e da Holanda que haviam emigrado ao Brasil e tinham que ser atendidos.”[65] Além disso, quando a Junta Evangélica Alemã publicou, em 1905, o seu “‘Memorando a respeito do atendimento eclesiástico da diáspora no exterior’, as Caixas de Deus rejeitaram-no, fundamentando sua rejeição com o fato de ‘que o memorando limita o conceito da diáspora no exterior aos alemães do Reino evangélicos ou a compatriotas, acentuando, pois, mais o aspecto nacional do que o religioso’.”[66] Outra característica interessante é o fato de que a rigorosa organização desse “Sínodo Pastoral”, que se reunia desde meados de 1899, com o dever de obediência a um presidente (Karl Otto Kuhr), parece estar cunhada por um conceito de Igreja de cunho mais hierárquico que esses pastores luteranos tinham[67]. Além disso, os pastores do Sín. Evang. Lut., por alguns indícios, sentiam-se como parentes confessionais dos missurianos, e que, portanto, pelo menos aparentemente, colocavam a confissão acima do etnicismo. Isso se mostra, por exemplo, no fato de que, quando da elaboração dos estatutos do sínodo, em 13 de junho de 1905, optou-se, por sugestão do P. Riegel, pela retirada do §3, que tratava das “questões abertas” ou doutrinas que não chegaram a uma formulação final no período da Reforma, sendo que isso poderia ser entendido como uma declaração de guerra pelo Sínodo de Missúri do RS[68]. Isso se mostra também no fato de a frase que figurava o cabeçalho do Boletim do Sínodo ao lado da cabeça de Lutero ser do fundador do Sínodo Missúri[69]. Conforme exposto, pelo menos aparentemente, pode-se perceber no Sín. Evang. Lut. uma grande contradição. De um lado, coloca-se a confissão “acima de tudo” e, de outro, o pensamento etnicista se faz presente, restringindo o campo de atuação do Sín. Evang. Lut. Caberá voltar a essa questão mais abaixo, quando for discutida a situação no Sín. Evang. Lut. durante e após a Segunda Guerra. 1.3 A Relação entre os dois Sínodos até 1932 A relação entre a Assoc. Evang. de Comunidades e o Sín. Evang. Lut. sempre foi conflituosa e isso se ilustra nas palavras do P. Hübbe ao dizer que os pastores da Assoc. Evang. de Comunidades teriam se deixado levar “ao caminho da grosseira caça de almas” pelos pastores luteranos[70]. De outro lado, os pastores luteranos sempre descobriam pontos fracos no trabalho realizado pelos pastores do Sup. Cons. Ecles. Evang., o que necessariamente tinha que resultar em desentendimentos[71]. Além disso, uma série de outros motivos provocavam as desavenças entre os dois sínodos. Um desses motivos era a fixação de contribuições inferiores por parte dos membros de comunidades assistidas pelos pastores do Sín. Evang. Lut.[72]. A participação dos leigos nas atividades comunitárias era muito fraca. O P. era visto como empregado e diante de qualquer questionamento, ameaça-se a mudança para a Caixa de Deus. A pergunta se não se deveria desistir de comunidades assim tornou-se inevitável[73]. Atritos também sempre parecem ter sido desencadeados pela justaposição dos dois sínodos[74]. Por isso, propôs-se, em 1931, a criação de uma comissão arbitral, que deveria resolver problemas em potencial sobre delimitações geográficas[75]. Ocasionalmente houve ainda conflitos confessionais como, por exemplo, em Hansa-Hamônia (Ibirama), onde o P. Dr. Paul Aldinger da Assoc. de Comunidades introduziu modificações no catecismo luterano, provocando a divisão da comunidade[76]. Ao que parece, havia um acordo entre os dois sínodos sobre as contribuições das comunidades, pois o P. Ewald Schröder, no início de sua atividade em Blumenau, em novembro de 1925, diz que o problema da subsistência pastoral na Assoc. de Comunidades não seria resolvido por acertos com o Sín. Evang. Lut., que previam que o Sín. Evang. Lut. não poderia aceitar as comunidades da Assoc. Evang. de Comunidades por contribuições mais baixas[77]. As diferenças foram sendo gradativamente superadas pela realização de Conferências Pastorais Intersinodais. Em 13 de agosto de 1926, por iniciativa do P. Erwin Hübbe, realizou-se em Jaraguá um primeiro encontro entre os pastores dos dois sínodos, o qual foi bastante promissor, com exceção da resistência do P. Bühler (Indaial) e do P. Hans Müller (Joinville), ambos do Sín. Evang. Lut.[78]. Por parte dos representantes das instâncias alemãs responsáveis pelos dois sínodos parece sempre ter havido interesse por uma co-existência pacífica. Isso foi manifestado em 1928 numa Conf. Past. da Assoc. Evang. de Comunidades com a participação especial do decano Gottlieb Volkert, que visitava o Sin. Evang. Lut. em nome da Caixa de Deus, e do D. Rahlwes do Sup. Cons. Ecles. Evang.[79]. As diferenças entre os dois sínodos eram muito mais as diferenças entre os pastores do que entre as comunidades, pois, em 1933, o presidente da Assoc. Evang. de Comunidades, P. Scheerer, relata que os membros das comunidades luteranas de modo algum teriam consciência de uma diferença confessional entre os sínodos. A causa da separação sempre teria sido a questão financeira ou o resultado de uma desavença na comunidade[80]. Uma segunda Conferência Pastoral Intersinodal ocorreu em junho de 1930 em Jaraguá, a qual foi incentivada por Funcke, seguindo os passos de Hübbe[81]. Pode-se dizer que, a partir desse ano, “paulatinamente passou a ocorrer uma aproximação mútua” entre o Sín. Evang. Lut. e a Assoc. Evang. de Comunidades[82]. II – 1932–1962: Da “guerra” à união A década de 1930 foi palco de grandes mudanças sócio-políticas na Alemanha e também no Brasil. Em 1930, no Brasil, Getúlio Vargas ascende ao poder e, na Alemanha, em 1933, o partido nacional-socialista de Adolf Hitler passa a ter o comando do país. Em ambos os casos a troca de poder levou à ditadura. Em ambos os contextos, a Igreja precisou se adaptar à nova situação, embora de maneiras distintas. O desenvolvimento da Igreja na Alemanha e a situação política brasileira das décadas de 1930 e 1940 contribuíram significativamente para o surgimento de uma Igreja evangélica de confissão luterana nacional no Brasil. 2.1 A situação na Europa com a Ascensão de Hitler A Primeira Guerra levou a sociedade européia ao colapso e juntamente com ela ruiu também o otimismo antropológico e o otimismo da Teologia Liberal, que havia se desenvolvido desde Schleiermacher. A população alemã não foi capaz de reconhecer a parcela de culpa pela Primeira Guerra e reagiu emocionalmente diante da culpa que lhe era imposta através da humilhação de ter que reparar os males da guerra, o que estava previsto no Tratado de Versalhes. Aliado a isso, a propaganda antidemocrática em relação à jovem República de Weimar possibilitou o surgimento da ditadura hitlerista. A Constituição de Weimar (1919) previa que haveria uma separação de Igreja e Estado, o que causou o protesto dos círculos protestantes conservadores. Na verdade, os pastores e teólogos estavam envolvidos por uma ideologia que ligava trono e altar e não foram capazes de enxergar os perigos do crescente nacionalismo[83]. Após o final da Primeira Guerra, começa a se desenvolver na Alemanha uma nova linha de pensamento, fortemente étnico, na qual o conceito de povo começa a ganhar cada vez mais relevância. Essa linha de pensamento também influenciou muitos jovens teólogos, também no Brasil. Essa valorização do conceito de povo acontece porque a família como campo de ação cristã parecia muito limitado, a sociedade cultural do século XIX foi destroçada pela guerra e o Estado havia se tornado duvidoso, aparentemente restara somente o povo. Somado a isso, a tentativa de superação da necessidade vital do povo, a pergunta pela salvação, levou à formação de uma teologia política do nacionalismo étnico. Mais tardar a partir de 1927, “o tema ‘Deus e povo’ poderia ser apresentado como tema étnico no centro do protestantismo alemão.”[84] Esse desenvolvimento culminou na tese teológico-eclesiástica da unidade histórica entre o verdadeiro germanismo e o cristianismo reformatório[85]. Não é objetivo aqui traçar um panorama político e descrever todo o desenvolvimento do pensamento étnico na Alemanha durante as décadas de 1930 e 1940, busca-se a seguir delinear um breve perfil institucional e ideológico das principais entidades alemãs que atuavam nas organizações eclesiais entre os imigrantes e descendentes de imigrantes alemães no Brasil. 2.1.1 Superior Conselho Eclesiástico Evangélico Havia um grande desejo de que as comunidades no Brasil estivessem mais ligadas entre si e também com a cristandade evangélica da Alemanha. Por esse motivo, assumindo uma sugestão do Sín. Riogr., o Sup. Cons. Ecles. Evang. em Berlim nomeou um Representante Permanente para o Brasil, com sede em Porto Alegre, que recebeu o título de prepósito. Foram representantes permanentes: Martin Braunschweig (1911 a 1919), Erwin Hübbe (1925 a 1928)[86], Paul Kaetzke (1929), Gottlieb Funcke (1929 a 1936)[87]. Os relatórios dos prepósitos também facilitaram e agilizaram decisões e resoluções do Sup. Cons. Ecles. referentes às comunidades[88]. Segundo Martin Dreher, o Sup. Cons. Ecles. Evang. sempre se manteve fiel ao princípio de não se deixar guiar por interesses políticos no trabalho que desenvolvia no Brasil, mesmo que as suas decisões estivessem limitadas pela política externa do Estado prussiano[89]. Ao mesmo tempo, no entanto, está claro que o Sup. Cons. Ecles. Evang. sempre teve interesse na preservação da germanidade, que se expressava no uso da língua alemã. Isso foi externado pelo Conselheiro do Estado, D. Rahlwes, numa alocução em 1929, na qual declara, em resposta à pergunta pela possibilidade de uma atividade bilíngüe no Brasil: “A Igreja da nossa pátria só tem um compromisso naquelas bandas [no Brasil] enquanto se falar a língua alemã nos templos. Caso começarmos a falar português ou espanhol, não mais seremos aqueles que fomos. O espírito e a língua estão ligados.”[90] A mesma idéia foi expressa em 1934, quando consentiu que a língua portuguesa poderia ser usada no Sínodo Brasil Central somente quando “for inevitável”, recomendando, outrossim, que “o cultivo da germanidade (continua a ser) uma necessidade inadiável.”[91] 2.1.2 Federação Eclesiástica Evangélica Alemã A Fed. Ecles. Evang. Alemã foi fundada em 1922. Em carta de 1º de junho de 1925, o Sup. Cons. Ecles. Evang. solicita às comunidades brasileiras que se filiem à Fed. Ecles. Evang. Alemã, pois lá encontrariam a mesma assistência que até agora tinham recebido da Igr. Territorial Evang. da Prússia[92]. A posição da Fed. Ecles. Evang. Alemã não foi diferente da posição assumida pelo Sup. Cons. Ecles. Evang., pois o presidente de ambas era a mesma pessoa. Os memorandos da Fed. Ecles. geralmente dirigiam-se aos “alemães do Reino” ou a “compatriotas”[93]. Além disso, na fundamentação da lei da Fed. Ecles. Evang. Alemã, concernente à filiação de comunidades no exterior, que foi apresentada no Dia da Igreja, em Bethel, em 1924, e que deveria ser imediatamente proclamada “por razões eclesiásticas e nacionais”, consta que o caráter teuto de uma comunidade reside no fato de a língua materna de seus membros ser o alemão e que os cultos e os ofícios deveriam ser realizados em língua alemã[94]. Nesse sentido, no acordo referente à filiação do Sín. Evang. Lut. à Fed. Ecles. Evang. Alemã, dois pontos são dignos de nota: 1. O idioma eclesiástico do Sínodo Evangélico Luterano é o alemão. Ele deve ser energicamente cultivado, preservado e fomentado na pregação da palavra, no ensino eclesiástico e na cura d’almas. 2. O uso da língua portuguesa, em ofícios eclesiásticos, que deve ser limitado a casos especiais, será regulamentado por instruções em separado[95]. No Dia da Igreja de 1930, em Nürnberg, o presidente da Fed. Ecles. Evang. Alemã exortou aos pastores que fossem em primeiro lugar, e acima de tudo, portadores da pregação, mas também “exigiu deles que fossem, no exterior, representantes do protestantismo alemão e da germanidade.”[96] Paradoxalmente, em suas cartas aos pastores no exterior, conclama-os para que evitem qualquer politização da comunidade e, principalmente, que deveriam evitar qualquer publicação de manifestações políticas[97]. 2.1.3 Departamento do Exterior da Igreja Evangélica Alemã Em julho de 1933, a Fed. Ecles. Evang. integrou-se na fortemente centralizada Igr. Evang. Alemã. Os sínodos que estavam ligados à Fed. Ecles. Evang. passam a ser subordinados ao Depart. do Exter., que é criado em 1934. A partir de 1936, quando todos os sínodos estavam ligados ao Depart. do Exter., passa a existir um representante permanente para os três sínodos “unidos”, prepósito Martin Marczynski, sediado em Buenos Aires; e um representante permanente para o Sín. Evang. Lut., prepósito Ferdinand Schlünzen, que também era presidente do Sínodo[98]. O Depart. do Exter. orientou-se pelos mesmos princípios adotados pelo Sup. Cons. Ecles. Evang. e pela Fed. Ecles. Evang., havendo apenas uma intensificação na busca de comprometimento com a causa da preservação da germanidade nas comunidades do exterior. Um dos objetivos do Depart. do Exter. era “alcançar a coordenação e a cooperação do protestantismo alemão mundial.”[99] Ao assumir a responsabilidade pelas comunidades brasileiras e seus Sínodos, a Igr. Evang. Alemã não só assumira o compromisso e o cuidado pela pregação do Evangelho. As autoridades eclesiásticas alemãs viram nesse fato a oportunidade e o compromisso de influenciar ideologicamente essa Igreja no exterior[100]. Nesse sentido, a carta do Depart. do Exter. entregue ao P. Hermann Waidner (Rio Serro – Sín. Evang. Lut.) antes do seu envio em 1934 é elucidativa, pois termina com as seguintes palavras: O Senhor o acompanhe com Sua graça e o fortaleça com Seu Espírito para trabalhar entre os compatriotas e companheiros na fé, na distância, com zelo incansável no ministério e em fidelidade inalterada à pátria alemã e para produzir ricos frutos para a renovação e fortalecimento da vitalidade étnica, para o estabelecimento e fortalecimento da Igreja Luterana Alemã no Brasil, para a vitória do Evangelho. Deus, o Senhor, é sol e escudo![101] O Depart. do Exter. da Igr. Evang. Alemã, entretanto, não conseguiu traçar um plano de ação de longo prazo para as comunidades no exterior, pois, em 1939, irrompia a Segunda Guerra Mundial, impossibilitando a continuidade dos trabalhos. Contudo, segundo Dreher, as atividades do diretor do Depart. do Exter., Bispo Theodor Heckel, foram fundamentais e prepararam a união dos quatro sínodos. Ele motivou a realização de duas “Conferências de líderes eclesiásticos”, em 1935, em Santos; e, em 1938, em Buenos Aires, nas quais foram apresentadas palestras de ordem teológica e prática e abordadas questões que dizem respeito a todos os sínodos[102]. Mas a questão central nesses dois encontros foi, sem dúvida, a preservação da germanidade[103]. 2.1.4 A tradição de Wilhelm Löhe Muitos dos pastores que atuaram no Sín. Evang. Lut. realizaram os seus estudos teológicos em Neuendettelsau e trouxeram em sua bagagem a tradição teológica e filosófica que ali predominava. Wilhelm Löhe é o fundador do Seminário de Neuendettelsau e o seu pensamento marcou este seminário por muito tempo. Num escrito de Löhe, de 1845, transparecem fortes tendências etnicistas: “Vós sois alemães! Levastes uma língua bela para além do oceano (...) Preservai o que tendes, não troqueis vossa língua por outra (...) Queremos colocar isso com letras maiúsculas diante dos vossos olhos. Com vossa língua, perdereis: vossa história, e com isso a compreensão correta da verdadeira Igreja de Deus (...).”[104] A influência de Wilhelm Löhe sobre os pastores do Sín. Evang. Lut. também se comprova pelo fato de vários artigos no jornal sinodal Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt se referirem às obras de Löhe. Nesse sentido, o pensamento etnicista nacional-socialista encontraria grande predisposição nos pastores do Sín. Evang. Lut. a partir de 1933. 2.1.5 O Elemento de Resistência – A Igreja Confessante Na Alemanha, com a ascensão do partido nacional-socialista de Hitler ao poder em 1933, muitos pastores e teólogos protestantes aclamaram o Führer como o líder que havia faltado em 1914. Já na década de 1920, muitos desses grupos reivindicavam uma purificação do cristianismo, rejeitando o Antigo Testamento, acentuando as raízes arianas de Jesus e declarando que o rabino Paulo do Tarso havia falsificado o Novo Testamento. Em 1932, esses grupos fundaram o Movimento de Fé Teuto-Cristão, que fazia uma síntese entre cristianismo e nazismo[105]. Por ocasião das eleições eclesiásticas de junho de 1933, “as corporações eclesiásticas foram ocupadas à força e por meio de expedientes enganosos com homens e mulheres de determinada marca. Esse partido político-eclesiástico se chamava os ‘teuto-cristãos’” e todos os pastores que rejeitassem a divulgação do Evangelho segundo o gosto do povo e a aplicação do parágrafo ariano à Igreja eram destituídos dos seus cargos ou transferidos[106]. A esse conflito que se instala no seio da Igreja na Alemanha na década de 1930 dá-se o nome de Kirchenkampf [batalha eclesial]. A oposição aos teuto-cristãos foi liderada por: Martin Niemöller (1892-1986), que fundou, em novembro de 1933, a Liga Emergencial de Pastores, seguida por um Conselho de Irmãos. Este assumiu as funções de governo eclesial paralelo em todos os níveis (...) Esses grupos passaram a se aliar à oposição e a professores de Teologia dissidentes, como Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), executado por conspirar contra o regime e por estar envolvido no atentado de 20 de julho de 1942 contra Hitler[107]. Em maio de 1934, a resistência se uniu e formou a Igreja Confessante, que formulou a Declaração de Barmen, na qual se rejeitou qualquer síntese entre fé cristã e nacional-socialismo e proclamou “a exclusividade da revelação, assim como ela está contida na Bíblia.”[108] Nesse período ainda não havia um seminário para a formação de pastores no Brasil, de modo que a formação acontecia na Alemanha. Segundo Martin Dreher, “a nova orientação teológica, provocada pelo Kirchenkampf, também influenciou a discussão político-eclesiástica no Brasil e (...) o Depart. do Exter. liderado pelo Bispo Heckel, a procurou evitar.”[109] Isso se mostra bem claramente no caso do P. Ernesto Th. Schlieper. O P. Schlieper foi enviado para a Alemanha em 1927 pelo Sín. Riogr. para a realização de estudos teológicos a fim de, no futuro, exercer no Brasil o seu ministério. Durante os seus estudos teológicos, realizados em diferentes seminários alemães, entre eles Ilsenburg, Schlieper passou a se situar completamente ao lado da Igreja Confessante. Como tal, não conseguia reconhecer o Depart. do Exter. como instância superior, o que dificultou bastante o seu retorno à terra natal, sendo que o envio de obreiros para o Brasil era assunto exclusivo do Depart. do Exter. Somente após uma série de negociações e até uma carta da mãe de Schlieper, é que ele pôde retornar ao Brasil em 1936 e exercer o seu ministério. Entretanto, precisou assumir perante o Depart. do Exter. o compromisso de não transferir o Kirchenkampf para o Brasil, mesmo que estivesse convencido de que[110] as brigas surgidas na I.E.A. [Igr. Evang. Alemã] tenham uma pergunta a dirigir a minha Igreja-pátria e, com isso, um significado para ela. É verdade que a situação de minha Igreja-pátria é diferente da I.E.A. e, por isso, uma simples transferência das divergências aqui surgidas para lá não faz sentido. O que, no entanto, me parecia importante, e nesse sentido agi, foi que minha Igreja-pátria compreendesse essa briga na I.E.A. e aprendesse a vê-la como uma briga eclesiástica, na qual tudo gira em torno da existência da Igreja[111]. Schlieper de fato nada fez para transferir o Kirchenkampf para o Brasil, mas nunca deixou de lado o aspecto da confissão, tanto do Sín. Riogr. quando mais tarde da IECLB. “Foi ele quem, no ano de 1948, conseguiu que o Sín. Riogr. confessasse sua culpa. Essa confissão foi uma expressão de sua íntima ligação com a Igreja Confessante, que ele mantivera apesar de todas as concessões exteriores.”[112] Aqui já se pode perceber que as mudanças no seio da Igreja alemã e a Igreja nacional que surge lá servirá de modelo para a Igreja nacional que irá surgir no Brasil. Além disso, em 1962, entregar-se-á as negociações acerca da fusão da Assoc. Evang. de Comunidades e da Sín. Evang. Lut. nas mãos da diretoria da Federação Sinodal (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB), cujo presidente é, nesta época, justamente o P. Schlieper. 2.2 A situação no Brasil a partir de 1930 2.2.1 Nativismo e Semana da Arte Moderna A troca de poder no Brasil em 1930 levou à ditadura, que foi interrompida por uma fase democrática de 1933 a 1937, mas ainda com Getúlio Vargas no poder. Podem-se observar, nessa época, duas tendências distintas de pensamento ideológico no contexto teuto-brasileiro, que logo entrariam em conflito. De um lado, uma maioria elevou a cultura luso-brasileira à norma e não toleraria mais por muito tempo a coexistência da cultura dos imigrantes, indígenas e afro-brasileiros. De outro lado, há os grupos teuto-brasileiros dispostos a preservarem a sua cultura no espírito nacional-socialista[113]. O espaço fundamental onde a cultura luso-brasileira ganhou expressão foi a “Semana da Arte Moderna”, realizada em São Paulo em 1922, por ocasião do centenário da independência. O “modernismo” que se revelou nessa ocasião não evidenciou apenas o peso da cultura do Brasil, mas também o “nativismo”, que estava convicto de que as demais culturas deveriam ser absorvidas pela que tinha sido elevada à cultura padrão e normativa[114]. Nesse espírito, cabe destacar o movimento renovador de jovens oficiais, denominado de “tenentismo”, que se uniu a uma série de políticos descontentes e daria origem à revolução liderada por Getúlio Vargas em 1930. Os princípios que norteavam esse movimento eram “centralização, uniformização e militarização”[115]. 2.2.2 Situação Política Grandes mudanças no campo político começaram a ocorrer no Brasil a partir do final da década de 1920. Segundo Dreher, os anos entre 1930 e 1959 foram tempos de organização nacional[116]. Em 1928, aconteceu uma reviravolta no Rio Grande do Sul (RS). As forças políticas foram unificadas em torno de Getúlio Vargas, que foi eleito presidente do Estado. Com isso, ocorre a derrota do sistema de governo conservador, que até aquele momento havia dominado na unidade meridional da federação[117]. O Brasil do final da década de 1920 também passava por uma grave crise econômica, pois Washington Luís (1926-1930) havia gastado o dinheiro do país com um amplo programa de construção de estradas. A tentativa de estabilizar a economia com base no ouro também no surtiu efeito devido à quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929. Nas eleições, no entanto, foi eleito o paulista Júlio Prestes do partido conservador, com o apoio de Washington Luís, causando indignação em Minas Gerais (MG) e no RS[118]. Além disso, a crise econômica favorecia o clima de revolução, que efetivamente estourou em 3 de outubro de 1930. A resistência armada foi organizada pelo Secretário do Estado rio-grandense, Oswaldo Aranha, que encontrou apoio no povo do RS e também em partes do exército em outras unidades da federação. Em 24 de outubro, Washington Luís teve que entregar o poder e Júlio Prestes foi obrigado a ir para o exílio, ficando a liderança formalmente nas mãos de Getúlio Vargas[119]. Diversos alemães se alistaram no exército revolucionário, principalmente no RS, de modo que se passou a ver nos teuto-brasileiros uma parcela valiosa da nação. O P. Karl Gottschald (1908-1957 – Sín. Riogr.), por exemplo, tinha a esperança de que isso traria conseqüências benéficas para as escolas particulares de imigrantes na futura reforma do ensino, da qual os revolucionários já haviam falado anteriormente[120]. Os anos de 1930 a 1932 do governo provisório foram determinados “pela luta em torno da alternativa ditadura administrativa como estado permanente ou convocação de uma assembléia constituinte para reintroduzir uma política e administração do Estado com fundamentos democráticos.”[121] Venceu a segunda e, em 1933, foram anunciadas eleições gerais para uma assembléia constituinte da República. Em 1934, foi proclamada a nova Constituição Brasileira[122]. A insatisfação da população, no entanto, continuava, mas Getúlio Vargas soube fortalecer a sua pessoa, utilizando-se de uma série de medidas. Soube jogar a esquerda contra a direita, enfraquecendo ambos os lados. Também os sindicatos foram transformados em organizações semi-estatais e em instrumentos para a manipulação da população. Além disso, procurou “minar a base do poder da casta da qual ele mesmo procedia.”[123] Getúlio Vargas queria, na verdade, manter-se no poder a qualquer preço, mas sabia que uma reeleição em 1938 não seria mais constitucionalmente possível. Assim, em 1937, com base em documentos falsificados, foi declarado o estado de guerra. E, em 10 de novembro de 1937, foi dado o golpe de Estado. Os presidentes dos Estados, a câmara, o senado, as câmaras municipais e os magistrados foram destituídos, a Constituição de 1934 foi revogada e promulgada a constituição autoritária do Estado Novo. A partir de dezembro de 1937, também foram tomadas medidas contra a filial brasileira do Partido Trabalhista Nacional-Socialista Alemão (NSDAP)[124]. A situação piorou em 1938 com a declaração do Estado Novo, pois agora a pregação e o ensino nas escolas deveriam ser realizados em português[125]. A relação dos governos latino-americanos com o nacional-socialismo alemão foi distinta e, muitas vezes, ambígua. Segundo Dreher, “na América Latina, não podemos esquecer governos que extraditaram judeus com a complacência da Igreja. O nome de Olga Benário não pode ser esquecido.”[126] 2.2.3 Preservação da Germanidade dos Imigrantes A derrota da Alemanha na Primeira Guerra, em 1918, não levou a uma reflexão geral sobre a cultura do etnicismo alemão. Os muitos círculos pangermânicos, principalmente no exterior, de forma alguma estavam dispostos a mudar de idéia e consideravam a política exterior modificada do Reich como traição à causa alemã. Em SC, o pangermanismo encontrou o seu eco no jornal Urwaldbote [Mensageiro da Selva], editado em Blumenau. “A ideologia pangermânica propagada pelo Urwaldbote iria necessariamente predispor os leitores no mais alto grau para a propaganda nacional-socialista!”[127] Além disso, segundo Wachholz, uma série de motivos contribuíram para que a ideologia germanista, e posteriormente o nacional-socialismo, encontrassem solo fértil no Brasil. Entre eles, pode-se citar: a situação de isolamento dos imigrantes e de rejeição por parte do governo e povo luso-brasileiros; a discriminação religiosa, sofrida especialmente pelos protestantes; o choque cultural, especialmente lingüístico; e ainda o aspecto social, pois eram tidos como cidadãos de segunda categoria[128]. Simultaneamente, o Sup. Cons. Ecles. Evang. depara-se, no Brasil, com o crescente desaparecimento da consciência da germanidade nas congregações, surgindo na Alemanha, com isso, a pergunta se os auxílios de ordem espiritual e financeira deveriam ser mantidos. Num relatório do prepósito Martin Braunschweig (1911-1919) consta que a Igr. Evang. da Alemanha teria cada vez menos oportunidades de realizar algo em sentido étnico no Brasil, o que sempre foi um de seus objetivos, e deveria limitar-se gradativamente aos assuntos religiosos, ao aprofundamento e à interiorização da fé. A atividade evangélico-eclesiástica no Brasil poderia e deveria ser progressivamente entregue à associação independente (Associação Gustavo Adolfo) e à sociedades missionárias (Barmen)[129]. Além disso, as mudanças políticas que aconteciam no Brasil logo passariam a agravar a complicada situação que se formará quando as relações entre Brasil e Alemanha foram rompidas e o início da Segunda Guerra. “A nova Constituição Brasileira de 1934 continha fortes traços nativistas. Uma série de determinações servia à nacionalização dos imigrantes e com isso atingiu também os teuto-brasileiros.”[130] O nativismo da década de 30 iria se manifestar de maneira especialmente forte em SC. “Já em 1934, o prepósito Hübbe percebeu uma atitude nativista-xenófoba entre os políticos de SC, que não prometia coisas boas para o futuro das escolas alemãs.”[131] A situação educacional em SC não era nada animadora na década de 1930, pois, mesmo com 50% de evangélicos no Estado, não foi possível a construção de uma segunda escola com internato, além da de Joinville, ficando a educação nas mãos de colégios católicos, nas quais reinava o espírito romano. Segundo Prien, esse déficit da educação em SC está relacionado ao fato de ele estar nas mãos de círculos com mais propósitos étnicos do que eclesiais[132]. Em muitos lugares, o ensino da língua alemã continuou proibido mesmo depois do fim da Guerra. O nível intelectual dos imigrantes era cada vez mais baixo, uma vez porque a maioria já descendia de classes pobres, e outra vez porque a qualificação dos professores era muito baixa. Além disso, as medidas contra a língua alemã já na Primeira Guerra fizeram com que a educação retrocedesse cada vez mais em SC. Em Blumenau, no entanto, por pressão política, conseguiu-se que a administração nomeasse novamente professores teutos para as escolas governamentais[133]. Entre os pastores, o P. Fritz Kessel de Badenfurt, enviado do Sup. Cons. Ecles., em 1921, vê uma inter-relação estreita de Igreja e germanismo e acreditava que a continuidade da Igreja somente seria possível com a preservação da cultura germânica[134]. No mesmo ano, o P. Fritz Bühler, do Sín. Evang. Lut., acentua praticamente a mesma coisa ao dizer que com Deus não se deveria falar numa língua estranha; por isso, a língua deveria ser considerada sagrada[135]. Essa provavelmente também foi a convicção de muitos outros pastores, pois, segundo Hans-Jürgen Prien, a ascendência do nacional-socialismo ao poder na Alemanha, em 1933, foi saudada pela maioria dos pastores, que passaram a justificar teológico-historicamente o resgate do etnicismo alemão[136]. No Concílio Sinodal da Sín. Evang. Lut., em Joinville, realizado de 17 a 21 de maio de 1933, pode-se observar inúmeras manifestações entusiasmadas em favor da “nova Alemanha”. Na ocasião, o prepósito Erwin Hübbe falou sobre “O novo movimento na Alemanha”[137]. O posicionamento de muitos pastores em favor do nacional-socialismo contribuiu para que se começasse a acentuar que “‘Todo luterano é nazista’”[138]. 2.2.4 A situação Eclesial Após a separação de Igreja e Estado em 1890, a Igreja Católica Romana aproveitou a situação para se declarar a única Igreja nacional. Quando começaram a ser tomadas as medidas contra as culturas dos imigrantes, principalmente nos períodos das duas guerras, ela declarou que havia naturalizado a si mesma e que não haveria meio melhor de promover a nacionalização do que por ela mesma[139]. Nesse período, a sociedade se tornava cada vez mais complexa e, em meio a essa complexidade, a Igreja Católica também foi se diversificando, ocupando-se com operários, universitários, civis, militantes, agricultores, estudantes, analfabetos... de modo que essa época se transformou no auge da Ação Católica[140]. Conforme Dreher, as décadas que sucederam a crise econômica de 1929, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, foram um período de amadurecimento do cristianismo na América Latina e também foram um tempo em que aconteceu a sua estruturação. Isso valeria “para todos, católicos e protestantes, indistintamente.”[141] Caberá verificar a seguir como essa estruturação se deu na Assoc. Evang. de Comunidades e no Sín. Evang. Lut., sendo que esses sínodos não puderam seguir o mesmo caminho da Igreja Católica, visto que as leis do país se dirigiam diretamente contra os seus pastores e uma grande parcela de seus membros. 2.3 A situação nos Sínodos de 1933 até o final da Segunda Guerra 2.3.1 A situação entre os pastores dos sínodos As medidas tomadas pelo governo brasileiro a partir de 10 de novembro de 1937 não atingiram, em primeiro lugar, as comunidades dos sínodos, mas os seus pastores alemães, entre os quais se formaram dois grupos distintos. Alguns pastores foram influenciados pelo ideal nacional-socialista e passaram a enxergar o seu trabalho como uma contribuição para a preservação do caráter germânico do Brasil[142] e ousaram persistir no uso do idioma alemão no culto e no ensino acima de tudo. Já um outro grupo compreendeu que, no futuro, não haveria mais possibilidades de continuidade para uma Igreja alemã no Brasil, devendo surgir no seu lugar uma Igreja com características brasileiras. Esse grupo também passou a defender a formação de um quadro autóctone de obreiros[143]. Segundo Dreher, a grande maioria dos pastores, durante a Segunda Guerra e as sucessivas políticas de nacionalização, estava diante de profundos conflitos de consciência. Por um lado, havia uma teologia das ordenações da criação, segundo a qual raça, sangue, idioma, etnia são tidos como dádivas da criação de Deus e que, dessa forma, deveriam ser santificados. E, por outro lado, havia o mandamento que exigia obediência às autoridades. Acima disso, no entanto, o conflito de consciência reside no fato de que esses pastores, de agora em diante, deveriam pregar aos seus paroquianos em uma língua que a maioria não entendia[144]. Também entre os membros das comunidades podem-se observar duas posturas frente às medidas governamentais. Por um lado, principalmente entre as pessoas mais jovens, houve disposição de entregar prontamente as escolas comunitárias ao governo e algumas até saudaram a nacionalização do ensino. Segundo Dreher, essa disposição origina-se do temor das autoridades, muito difundido entre os imigrantes. Por outro lado, as gerações mais velhas lamentaram o fechamento ou a desapropriação das escolas[145]. Para Dreher, as maiores influências nacional-socialistas aconteceram no trabalho com jovens. No Sín. Evang. Lut., esse trabalho foi iniciado em 1937, sob a liderança do P. Erich Fischer (Baixo Guandu/ES), que era editor da revista Der Junge Kampfer [O Jovem Combatente]. Uma das principais idéias defendidas pelo P. Fischer em seus artigos é o ideal de raça pura, pois muitos jovens teutos estavam se casando com pessoas de outros grupos étnicos[146]. No sul do país, entretanto, o trabalho com jovens não ganhou maior expressão, possivelmente em face da iminente nacionalização[147]. 2.3.2 Assoc. Evang. de Comunidades (Sínodo Evangélico de Santa Catarina e Paraná) A Assoc. Evang. de Comunidades passa por um período de crise interna na década de 1930. Um dos principais motivos dessa crise estaria no descontentamento das comunidades em relação aos seus pastores[148]. Além disso, a infiltração de associações diaconais e de evangelistas não era vista com bons olhos pelo prepósito Funcke[149], possivelmente por não haver um controle sobre os obreiros enviados por essas associações pelo Depart. do Exter. Essas iniciativas independentes poderiam vir a dificultar a pretendida uniformização e aproximação dos quatro sínodos e também corria-se o risco de que o Kirchenkampf alemão fosse transferido para o Brasil. Já em 1931, a Assoc. Evang. de Comunidades teve que se ocupar com o decreto nativista nº 58 “que parecia ter sido criado para reprimir as escolas particulares alemãs em SC”, contra o qual a Assoc. Evang. de Comunidades protestou “do ponto de vista da religião”[150]. Em 1933, formulou-se na Assoc. Evang. de Comunidades uma nova constituição, segundo a qual o seu nome passaria a ser “Sínodo Evangélico de SC e PR do Rito Alemão” e a base confessional seria: a Sagrada Escritura e os escritos confessionais da Reforma de Martinho Lutero, particularmente a Confissão de Augsburgo de 1530 e o Catecismo Menor. O seu objetivo era “a ampliação de uma Igreja evangélica nacional de caráter alemão, em estreita relação com a Igreja evangélica da pátria alemã.”[151] A Assoc. Evang. de Comunidades também buscou, a partir de 1933, a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã. No entanto, isso foi dificultado pelo fato de não se dispor de uma estrutura firme na Assoc. Evang de Comunidades, sendo recomendado que as comunidades individualmente se filiassem à Igr. Evang. Alemã. Em 1934, por ocasião do Concílio Sinodal em Brusque, a Assoc. Evang. de Comunidades jurou fidelidade ao Bispo do Reich e ao Depart. do Exter. A partir de 1º de abril de 1936, passou a vigorar a filiação das comunidades à Igr. Evang. Alemã. Também se extinguiu o cargo de representante permanente, passando a existir somente um representante permanente para toda a América do Sul, o prepósito Martin Marczynski, com sede em Buenos Aires[152]. A filiação das comunidades em bloco à Igr. Evang. Alemã fortaleceu a Assoc. Evang. de Comunidades, pois esta estava condicionada pela filiação da comunidade à Assoc. Evang. de Comunidades. Ao mesmo tempo, esse fato evidencia o quanto se dependia dos organismos nacional-socialistas, pois as comunidades foram obrigadas a realizarem coletas para a Obra Assistencial para o inverno do NSDAP (o partido nacional-socialista), garantindo a simpatia do partido. Já a partir de 1920 foram publicados apelos no jornal do sínodo Der Christenbote [“O Mensageiro Cristão”] em favor da miséria na Alemanha, sendo enviadas muitas toneladas de roupas e mantimentos[153]. Isso ocorreu porque as verbas para a Assoc. Evang. de Comunidades eram pagas pela Embaixada Alemã no Rio de Janeiro, sendo que o Depart. do Exter. depositava os valores no setor de divisas do Reichsbank [Banco do Reich][154]. Além disso, Prien chama a atenção para dois artigos no jornal sinodal Der Christenbote, publicados em 1933, que claramente promovem o pensamento etnicista. O primeiro, intitulado “Pela Nova Igreja”, que atribui a reestruturação da Igreja à “Comunhão de Fé dos Teuto-Cristãos”; e o segundo artigo, “As tarefas internas do Movimento de Fé dos ‘Teuto-Cristãos’”, que caracteriza a comunhão “teuto-cristã” como uma comunidade orientada por verdade, justiça e amor. Já um outro artigo no mesmo jornal, “Nenhuma política traz a redenção, e, sim, somente o puro e autêntico Evangelho”, critica as eleições eclesiásticas alemãs ocorridas em junho de 1933. Além disso, Prien observa que o jornal Der Christenbote, nos anos de 1935-1939, publica vários artigos que discutem positivamente o Antigo Testamento, mas que, simultaneamente, acentuam a diferença entre os judeus de hoje e os judeus do Antigo Testamento. Apesar dessas observações, no entanto, não haveria divisões político-eclesiásticas ou teológicas no ministério pastoral em SC e PR segundo um relatório do prepósito Martin Marczynski de 1937[155]. Em 1937, aconteceu em Timbó o último Concílio da Assoc. Evang. de Comunidades antes da guerra. Na ocasião deu-se a eleição do P. Ulrich Schliemann (Florianópolis) para a presidência da Assoc. Evang. de Comunidades, em substituição ao P. Wilhelm Scheerer, que estava sobrecarregado de atividades na sua comunidade em Blumenau. Scheerer havia solicitado um P. estagiário ao Depart. do Exter., mas o pedido foi negado pelo bispo Heckel, com a desculpa de que, após o fechamento do seminário de Ilsenburg, não haveria mais pastores estagiários disponíveis. Decidiu-se, ainda, que a Assoc. Evang. de Comunidades passaria a se dedicar com maior afinco “a suas instituições comuns, a saber, à escola preparatória para formação de professores em Timbó, cujo tempo de formação foi ampliado em um ano, e ao ancionato em Nova Breslau, para o qual todas as comunidades deveriam levantar uma coleta anual, de preferência a coleta da festa da colheita.”[156] Na mesma ocasião, o P. Scheerer, com naturalidade, constata que: “Como Igreja temos em alta estima o etnicismo conforme o 1° Artigo. Somos Igreja ‘teuto-evangélica’.”[157] Nos estatutos registrados em 5 de dezembro de 1939, a Assoc. Evang. de Comunidades muda o seu nome para “Synodo Evangelico de Santa Catarina e Paraná” (Sín. Evang. de SC e PR)[158]. A primeira assembléia da Assoc. Evang. de Comunidades após o final da Segunda Guerra (1945) aconteceu em Blumenau, de 11 a 12 de junho de 1947. Na ocasião falou Hermann Müller-Hering, que esteve na diretoria da Assoc. Evang. de Comunidades desde a sua fundação. Ele enfatizou dois aspectos em seu discurso: 1) a necessidade de que a Assoc. Evang. de Comunidades se torne, agora, uma “Igreja no Brasil”; e 2) a necessidade da união dos quatro sínodos numa “Igreja autônoma”, que tem a responsabilidade de zelar pela formação de seus pastores, bem como pela edificação de suas comunidades e pela diaconia. Na ocasião, votou-se por unanimidade em favor da criação da Federação Sinodal, sendo que o objetivo desta deveria ser a formação de pastores na Escola de Teologia em São Leopoldo[159]. A última assembléia do Sín. Evang. de SC e PR aconteceu no dia 19 de outubro de 1962, em Curitiba, pois, no dia seguinte, aconteceria a fusão com o Sín. Evang. Lut.[160]. 2.3.3 Sín. Evang. Lut. (Igreja Luterana Alemã no Brasil) Com a filiação do Sín. Evang. Lut. à Fed. Ecles. Evang. Alemã, em 1933, houve também uma mudança no nome do sínodo, que passou a se denominar “Igreja Luterana Alemã no Brasil”[161]. Por ocasião do Concílio Sinodal, em maio de 1933, o P. Ferdinand Schlünzen foi eleito presidente do Sín. Evang. Lut. Mas a promessa de que o sínodo receberia um representante permanente próprio ainda não pôde ser concretizada. Em 1933 e 1934, o prepósito provisório Erwin Hübbe visitou o sínodo somente duas vezes. Em sua primeira visita, entre 7 de abril e 25 agosto de 1933, acabou com as últimas resistências contra a filiação à Fed. Ecles. Evang. Alemã (1933). Além disso, a sua tarefa durante essa visita foi de fazer um levantamento nas comunidades com a finalidade de supervisionar as verbas do Depart. do Exter. e também deveria “ventilar o problema de um representante permanente”[162]. Em 1934, Hübbe visitou o Sín. Evang. Lut. mais uma vez e constatou que a necessidade de um representante permanente havia aumentado devido às dificuldades desencadeadas pelas “interferências no sistema escolar da Igreja e (...) pelo procedimento dos ‘teuto-cristãos’.”[163] Quando cogitou-se, em 1934, a possibilidade de o P. Gottlieb Funcke assumir simultaneamente esse cargo, o presidente do Sín. Evang. Lut., P. Ferdinand Schlünzen, desaconselhou o Depart. do Exter. de fazê-lo, pois isso poderia ser visto como uma maneira de forçar a união com os outros sínodos, sendo que Funcke era enviado do Sup. Cons. Ecles. Evang. e representante permanente em Porto Alegre. Somente em 1936, a questão foi resolvida. Por ocasião da viagem do P. Ferdinand Schlünzen à Alemanha, ele foi nomeado simultaneamente representante permanente para o Sín. Evang. Lut. Dessa forma, também se resolveu a questão financeira, pois o Depart. do Exter. não tinha condições de manter mais um representante permanente[164]. Segundo Dreher, após a ascensão de Hitler, há um maior interesse no Sín. Evang. Lut. pelos acontecimentos eclesiásticos na Alemanha, pois, no jornal do sínodo Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt, em tempos anteriores, não se fazia qualquer menção a esse respeito; agora, no entanto, são inúmeras as notícias, embora sem comentários ou posicionamentos. Isso refletiria a posição do sínodo que foi de neutralidade em relação aos acontecimentos na Europa. Mas a incerteza em relação ao que estava acontecendo em termos de Igreja na Alemanha levou a que logo não se publicasse mais nada sobre o assunto[165]. Mesmo assim, inúmeras notícias do jornal do sínodo chamam a atenção. No relato sobre a assembléia de 19 de setembro de 1936, consta que o presidente do Sín. Evang. Lut., P. Ferdinand Schlünzen, estando pela primeira vez como representante do Depart. do Exter., abriu a assembléia e passou a palavra para o representante do consulado alemão na cidade, Schmidt, que fez um discurso mais longo saudando a assembléia e colocou “uma foto do Führer do povo alemão, Adolf Hitler, diante dos seus olhos.” Após esse momento, Schlünzen agradeceu ao cônsul e iniciou-se a assembléia[166]. Acontecimentos como este parecem deixar ainda mais nebulosa a posição do Sín. Evang. Lut. frente ao nacional-socialismo. De um lado, percebe-se a clara tentativa por parte de representantes alemães de influenciarem os pastores. Por outro lado, a maneira como essa notícia é narrada poderia ter um tom irônico e que desvaloriza a atitude do cônsul de mostrar a foto do Führer. Observa-se que, a partir de 1937, começam a ser publicados mais artigos que promovem o germanismo e os ideais nacional-socialistas no jornal sinodal. Além disso, em 1º de abril de 1937, publica-se na terceira página do Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt uma convocação para a Semana Alemã em Curitiba, a ser realizada de 24 de abril a 2 de maio daquele ano. Associações alemãs, juntamente com o grupo local do NSDAP, estariam organizando o encontro com a finalidade de aumentar o comércio entre Brasil e Alemanha e aprofundar as relações entre os dois países. Diversos eventos previstos durante a semana teriam a finalidade de promoção cultural e social alemã. Trata-se do primeiro evento nesse estilo que não estaria restrito ao Paraná, mas também pessoas dos Estados vizinhos poderiam e até deveriam participar[167]. Um outro artigo que chama especial atenção foi publicado em julho de 1937, no qual se fala dos estudantes mortos em combate, sendo não menos que 36.3% estudantes de teologia evangélica. Isso mostraria que germanidade e cristianismo são conciliáveis, diferentemente do que insistem alguns círculos alemães, e que, de modo algum, o cristianismo desabilitaria as pessoas para cumprirem com seus deveres nacionais[168]. Segundo Prien, os pastores do Sín. Evang. Lut. foram especialmente suscetíveis ao ideário nacional-socialista por serem cunhados pela Escola de Erlangen no espírito de Althaus e de sua teologia das ordenações da criação[169]. O material que fala do impacto do nacional-socialismo nas comunidades e nos pastores do Sín. Evang. Lut., segundo Dreher, é muito limitado. Isso mostraria que as comunidades e os pastores quase não tiveram tempo de se ocuparem intensivamente com o nacional-socialismo. Em primeiro lugar, pela distância e demora na chegada das notícias e também pela sua parcialidade, o que dificultava uma tomada de decisão; e, em segundo lugar, pelas dificuldades que a política interna do Brasil causava ao sínodo. Após 1933, o Sín. Evang. Lut. teve de se preocupar com a sua sobrevivência e, além disso, foi um tempo de reflexão e de recolhimento[170]. Indício para a busca por sobrevivência pode ser o apelo no Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt para a filiação das comunidades que aceitavam a assistência de pastores do Sín. Evang. Lut., mas que não queriam uma filiação formal ao sínodo. Argumenta-se com a afirmação de que a existência cristã autêntica não pode acontecer isolada[171]. A adesão de mais comunidades poderia ser uma forma de buscar o fortalecimento interno do Sín. Evang. Lut. Dreher afirma que, no Sín. Evang. Lut., desde muito cedo, se percebeu a necessidade de que pelo menos parte das atividades eclesiásticas deveriam ser realizadas em língua portuguesa e que “a confissão luterana sempre teve primazia frente à questão da germanidade, da etnia.”[172] Mas, somente a partir de abril de 1938, começam a ser publicados pequenos artigos em língua portuguesa no jornal sinodal. Eles são geralmente da autoria da Polícia do Rio de Janeiro e são um alerta para o perigo comunista[173]. A partir de maio de 1938, também se começa a publicar comentários a livros brasileiros, principalmente obras que falam sobre os benefícios trazidos pelo Estado Novo, inclusive um livro do próprio Getúlio Vargas[174]. Mas se o Sín. Evang. Lut. tinha a consciência da necessidade de se fazer uso da língua alemã ao menos em parte de suas atividades, por que não são publicados mais artigos em língua portuguesa no jornal sinodal? 2.3.4 A caminhada conjunta de 1933 a 1945 A tensão por causa de limites entre o Sín. Evang. Lut. e a Assoc. Evang. de Comunidades continuou mesmo após a filiação do Sín. Evang. Lut. à Fed. Ecles. Evang. Alemã (1933). Em 27 de julho de 1934, numa Conferência Pastoral Intersinodal em Jaraguá, foram estabelecidos alguns acordos que visavam diminuir os conflitos, os quais, no entanto, não foram respeitados por nenhuma das partes, instalando-se um clima de desconfiança que dificultaria ainda mais uma aproximação. O prepósito Funcke, no entanto, insistia numa maior cooperação entre o Sín. Evang. Lut. e a Assoc. Evang. de Comunidades, promovendo a realização de Conferências Pastorais Intersinodais com mais freqüência a partir de 1936[175]. A partir de 1936, também se começa a observar uma maior aproximação por parte do Sín. Evang. Lut. com os outros sínodos. Em 1º de julho de 1936, por exemplo, é publicada no Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt uma palavra de saudação do D. Wilhelm Zoellner pelo jubileu do Sín. Riogr.[176]. Para Fischer, durante a época do Estado Novo (1937-1945), da nacionalização e da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim o modelo de “Igreja Alemã no Brasil”, passando a voltar-se para a realidade brasileira e buscando um arraigamento no contexto brasileiro sem romper com seu passado. E o tema básico desse período foi a pergunta pela identidade[177]. Em 1961, por exemplo, após a Segunda Guerra e quando está em pauta a fusão da Assoc. Evang. de Comunidades (Sín. Evang. de SC e PR) com o Sín. Evang. Lut. (Igreja Luterana no Brasil), o clima nos Concílios e Conferências Pastorais da Assoc. Evang. de Comunidades é bem outro do que reinava em 1937. Em 3 de maio de 1961, por ocasião da Conf. Past. em Ituporanga, as 150 comunidades que integram a Assoc. Evang. de Comunidades são caracterizadas como integrantes de uma “grande comunhão de fé”[178]. 2.4 A Federação Sinodal e a caminhada dos dois sínodos depois da Segunda Guerra O período após a Segunda Guerra significou para os sínodos uma nova era, determinada pela busca por uma “reorientação teológica da Igreja”, na qual os últimos resquícios de uma Igreja Alemã no Brasil seriam superados. Entre os pastores, pode-se obserar basicamente dois grupos. De um lado, estavam os que eram a favor dessa renovação interna da Igreja. De outro, havia os “conscientemente alemães”, que estavam completamente desorientados. Também nas comunidades, os festejos pelo final da Segunda Guerra não contaram com uma grande participação de alemães ou teuto-brasileiros[179]. A reorientação teológica na Igreja no Brasil foi conduzida, principalmente, pela geração mais jovem de pastores que estudou na Alemanha durante o período do Kirchenkampf e que foi influenciada pela situação de caos político-eclesiástico ali reinante. Muito importante, nesse sentido, foi o retiro teológico realizado em Ijuí em julho de 1948 e repetido em São Leopoldo, no qual se tratou o tema: “A confissão da Igreja”. As palestras desse encontro foram publicadas e tornaram-se conhecidas também nos outros sínodos. A Igreja no Brasil passou a não ser mais vista como sustentáculo da cultura germânica, mas como uma “Igreja no Brasil”, o que iria se manifestar na pregação[180]. As duas Guerras Mundiais e principalmente as experiências do Kirchenkampf fizeram surgir nos quatro sínodos, mas também em outras Igrejas, a consciência da necessidade de um constante vir a ser Igreja. A pergunta pela verdade da confissão passa a ser inevitável, provocando, simultaneamente, a abertura para o diálogo. Os acontecimentos dos anos anteriores fizeram com que os quatro sínodos se abrissem ecumenicamente, não logo para com outras igrejas cristãs, mas entre si mesmos. Isso levou a que se criasse, em 26 de outubro de 1949, a Federação Sinodal, na qual se definiu uma base confessional clara[181]. Segundo Krause, entre os principais motivos que levaram a criação da Federação Sinodal estão os impulsos de aproximação na década de 1930 por meio da ideologia da preservação da germanidade. Também a política dos representantes permanentes Erwin Hübbe e Gottlieb Funcke de promover o diálogo entre os sínodos teve papel importante. Além disso, a pressão da política brasileira de nacionalização impulsionou para que se realizasse já em setembro de 1938 um encontro entre os presidentes dos quatro sínodos, em São Leopoldo. Nesse encontro já foi manifestado o desejo e a disposição para a formação de uma federação sinodal[182]. Os estatutos da Federação, bem como a sua interpretação feita pelo Presidente P. D. h.c. Hermann Dohms por ocasião do Primeiro Concílio Eclesiástico da Federação Sinodal, em São Leopodo, de 14 a 16 de maio de 1950, evidenciam que “agora os acentos eram postos em uma Igreja no Brasil, em responsabilidade para com todo o povo brasileiro e não mais em responsabilidade para com um grupo étnico.”[183] É digno de nota que o Sín. Evang. Lut., no qual se perceberam maiores influências nacional-socialistas do que na Assoc. Evang. de Comunidades, ser o primeiro dos quatro sínodos a ratificar o estatuto da Federação Sinodal em 15 de novembro de 1948[184]. 2.5 1962: O Sínodo Evangélico Luterano Unido A fusão entre o Sín. Evang. Lut. e a Assoc. Evang. de Comunidades é uma acontecimento que permaneceu na pauta de conferências, encontros e assembléias por várias décadas. Segundo as notícias do jornal sinodal da Assoc. Evang. de Comunidades, a união era um grande desejo das comunidades, mas as questões confessionais não permitiam uma aproximação[185]. Em 9 de fevereiro de 1961, aconteceu em Ponta Grossa uma Conf. Past. Intersinodal entre o Sín. Evang. Lut. e a Assoc. Evang. de Comunidades, na qual participaram 28 pastores com seus respectivos presidentes sinodais. Na conferência também participou o presidente do Sín. Br. Centr., P. Martin Begrich. O objetivo dessa conferência era o de discutir algumas perguntas que haviam surgido sobre o propósito da união dos dois sínodos, depois que a Comissão Intersinodal havia chegado a um acordo sobre os principais pontos de uma fusão nos encontros de Blumenau e Pomerode. Uma das principais perguntas levantadas foi pela base confessional do futuro “sínodo unido”, sendo que, segundo a opinião dos representantes do Sín. Evang. Lut., os estatutos da Federação Sinodal não poderiam ser suficientes. Decidiu-se na ocasião apresentar uma proposta correspondente aos anseios para a Convenção Pastoral da Assoc. Evang. de Comunidades, da qual havia somente oito pastores presentes. Comenta-se ainda que, apesar das fortes divergências, reinou um espírito de irmandade[186]. Mas a Conf. Past. da Assoc. Evang. de Comunidades, em maio de 1961, em Ituporanga, deixa transparecer que a Assoc. Evang. de Comunidades também estava interessada na questão confessional e não somente o Sín. Evang. Lut., pois na ocasião é feita uma preleção sobre a “Fórmula de Concórdia, seu objetivo, seu conteúdo e o seu significado para nós hoje”, realizada pelo P. Dübbers[187]. Em 13 de novembro de 1961, aconteceu em Blumenau a quarta reunião anual da diretoria da Assoc. Evang. de Comunidades. Na ocasião foi feito um relatório detalhado sobre o Concílio da Federação Sinodal ocorrida em outubro, em São Paulo, no qual a pergunta pela fusão da Assoc. Evang. de Comunidades com o Sín. Evang. Lut. teria sido apresentada aos demais pastores da “Igreja Luterana no Brasil” [IECLB]. Após o consentimento dos pastores em favor da união, foi solicitado ao P. Schlieper, presidente da Federação Sinodal, que conduzisse as negociações referentes à fusão daquele momento em diante e que “removesse do caminho eventuais obstáculos”[188]! O jornal sinodal da Assoc. Evang. de Comunidades, em 15 de maio de 1962, noticia sobre o encontro entre representantes da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut., ocorrido em 9 de abril, em São Leopoldo, sob a presidência do P. Schlieper. Na ocasião, a Assoc. Evang. de Comunidades sugeriu uma revisão dos estatutos elaborados anteriormente, para que o sínodo unido fosse organizado em quatro distritos eclesiásticos. Os representantes de ambos os lados também consentiram com o nome “Sínodo Evangélico Luterano Unido”, que tinha sido uma sugestão do P. Schlieper. Concordou-se também que não deveria tardar ainda mais a desejada fusão, de modo que foram escolhidos os dias 25-27 de julho de 1962 para a realização da Assembléia Constitutiva do Sínodo Evangélico Luterano Unido. Como local para a assembléia escolheu-se Curitiba, devido a sua posição central, possibilitando que também os pastores do PR e ES comparecessem[189]. Segundo redator da notícia Die Fusion, no Mensageiro do Evangelho, a união da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut. é um evento histórico-eclesiástico muito significativo. Esse evento não apenas encerraria uma época, na qual dois sínodos, que em sua constituição eram “Igreja de imigrantes alemãs e de seus descendentes”, se desenvolveram separadamente, apesar de terem em comum a concepção de Igreja segundo a Reforma de Martinho Lutero. Mas o evento seria significativo, pois levaria essencialmente ao fortalecimento e a uma maior unidade interna da Federação Sinodal e da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil[190]. Em São Leopoldo, havia se escolhido os dias 25-27 de julho de 1962 para a Assembléia Constituinte do Sínodo Evangélico Luterano Unido, mas esta viria a se realizar, por motivos ainda desconhecidos, somente em outubro, em Curitiba[191]. No dia 20 de outubro de 1962, em Curitiba, ocorreu a fusão da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut., constituindo o Sínodo Evangélico Luterano Unido. Na assembléia constituinte também se discutiu e aprovou um esboço para uma Ordem da Igreja. A unificação da direção dos sínodos, no entanto, ocorreria somente em maio de 1963, quando o presidente interino no novo sínodo, P. Karl Gottschald, retornasse de suas férias na Alemanha. Além do P. Gottschald, foram eleitos para a diretoria do sínodo: P. Hans Zischler e P. Hermann Stoer (vice-presidentes), P. Heiz Ehlert (1º secretário), Emilio Odebrecht (2º secretário), Hans Frhr. von Wangenheim (1º tesoureiro), Telmo Pahl (2º tesoureiro), João Wunderlich, P. Georg Burger, P. Hendrich e Herbert Ehlert (juízes adjuntos)[192]. Nos estatutos do Sín. Evang. Lut. Unido foi estabelecida a seguinte orientação confessional: O Sínodo Evangélico Luterano Unido tem por missão manter e propagar o Evangelho de Jesus Cristo, baseando-se nas Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento, professando as confissões da Reforma de Martin Luther, sobretudo a Confessio Augustana e o Catecismo Menor de Martin Luther[193]. Segundo Wachholz, no processo de aproximação da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut. houve um “ir ao encontro” mútuo. Enquanto a Assoc. Evang. de Comunidades permitiu uma clareza maior do que simplesmente referência às “confissões da Reforma Luterana”, o Sín. Evang. Lut. “abriu mão” do Catecismo Maior de Lutero, da formulação “inalterada” (Confissão de Augsburgo), da Apologia, dos Artigos de Esmalcalde e da Fórmula de Concórdia (obviamente deve-se observar que os estatutos de 1962 não necessariamente os excluem ao mencionarem somente “as confissões da Reforma da Martim Lutero, sobretudo a Confessio Augustana e o Catecismo Menor de Martim Lutero”, mas também não os contemplam necessariamente)[194]. Fato é que os acontecimentos de 1930 até 1945 desencadearam nesses dois sínodos em SC uma profunda reflexão a respeito de sua identidade, a qual até então não havia sido necessária, sendo que recebiam a sua identidade da Igreja-mãe alemã. Até aquele momento eles haviam sido apenas “Igrejas Alemãs no Brasil”. Essa reflexão levou a um grande senso de tolerância e aceitação mútua, possibilitando a integração na Federação Sinodal e também a fusão de ambos os sínodos no Sín. Evang. Lut. Unido em 1962. Conclusão A pesquisa revelou que a IECLB não é uma Igreja uniforme e estática, mas ela é constituída de testemunhos diversos que, apesar de diferentes, sabem-se unidos pelo Senhor da Igreja, Cristo. Assim, desde o início de sua história, a IECLB precisou ser ecumênica consigo mesma, procurando a unidade em meio à diversidade. Os dois sínodos em SC, quais sejam, a Assoc. Evang. de Comunidades e o Sín. Evang. Lut., o revelam de maneira muito clara. Os seus acentos confessionais eram diferentes, levando esses dois sínodos, inclusive, a conflitos, provocando rancor, desconfiança, medo e receio de que uma aproximação poderia levar à perda da própria identidade. O processo de aproximação desses dois sínodos não foi rápido, muito pelo contrário, foi até mais longo do que a constituição da própria IECLB. Como foi visto, diversos fatores contribuíram nesse processo de aproximação entre os quatro sínodos, entre os quais se destacam os seguintes: A atuação das entidades eclesiásticas alemãs, principalmente do Depart. do Exter. Apesar da forte presença ideológica etnicista nas atividades do Depart. do Exter., a aproximação dos quatro sínodos que ele promoveu foi fundamental para o diálogo intersinodal que iria ocorrer após a Segunda Guerra. O Depart. do Exter. foi como um “pai” para os sínodos brasileiros, sendo a sua “mãe” a Igr. Evang. Alemã, que sustentava os trabalhos. Com o final da guerra, os sínodos brasileiros ficaram “órfãos de pai e mãe” sob o ponto de vista material e financeiro, mas não ficaram órfãos sozinhos! Eles precisavam continuar a sua caminhada e optaram por fazê-lo irmanados. Toda a discussão em torno da filiação do Sín. Evang. Lut. à Fed. Ecles. Evang. Alemã evidencia uma vez mais a difícil questão da proclamação da mensagem do Evangelho em uma outra cultura. Mais vezes durante a história, pode-se perceber a ocorrência do mesmo erro: a verdade evangélica é identificada com uma determinada cultura. No período colonial, o Evangelho era sinônimo da cultura católica européia, principalmente portuguesa e espanhola, que era imposta aos povos indígenas. Algo semelhante aconteceu quando da chegada dos imigrantes; quem não falasse e assumisse imediatamente a cultura dos governantes era visto como antipatriota. Da mesma forma, segunda, terceira e até mais gerações de descendentes de imigrantes ainda assumiam a nacionalidade de seus antepassados. As políticas de nacionalização nos períodos de guerra são sintoma do mesmo e inaceitável pensamento que identifica ideologia e etnia. Também a Igreja Alemã incorreu no mesmo erro ao impor o idioma alemão como idioma eclesiástico para o Sín. Evang. Lut. quando da filiação deste à Fed. Ecles. Evang. Alemã (1933). Mesmo que de forma negativa, as políticas de nacionalização durante os períodos de guerra promoveram a aproximação dos sínodos, pois os quatro sínodos sentiram-se impulsionados a buscarem a união em meio a uma situação de perseguição e opressão. O clamor por justiça, aceitação e dignidade, nesse caso, levou a sustentação mútua. No processo de aproximação dos quatro sínodos, não pode ser esquecida a contribuição dos pastores que estudaram na Alemanha na década de 1930, durante o período do Kirchenkampf. Como exemplo, apresentou-se o caso do P. Schlieper. Sem dúvida alguma o P. Schlieper teve um papel fundamental na formação da IECLB, mas também na aproximação e fusão da Assoc. Evang. de Comunidades e do Sín. Evang. Lut., sendo que ele foi o intermediador desse processo. Mas, além do P. Schlieper, houve outras pessoas que refletiram a necessidade de uma Igreja nacional no Brasil. Um desses exemplos é a palestra de Hermann Müller-Hering na assembléia da Assoc. Evang. de Comunidades de 1947, no qual acentuou a necessidade de cooperação entre os quatro sínodos brasileiros e também a urgência na formação de um quadro de obreiros autóctone. Além disso, os retiros teológicos no pós-guerra ajudaram na aproximação dos sínodos, mas, muito mais do que isso, eles determinaram o compromisso comum dos sínodos e foram um chamado para penitência e reflexão. No retiro teológico realizado em Ijuí, em julho de 1948, e que foi repetido em São Leopoldo, tratou-se o tema: “A confissão da Igreja”. A formulação desse tema, no contexto de pós-guerra de 1948, no qual a Igreja, em muitos momentos, esteve ao lado de um sistema altamente opressor, tem um significado muito especial. Quando se pergunta pela “confissão da Igreja” num momento assim, então se pergunta pelo seu papel e responsabilidade para com a humanidade. Quando pessoas são mortas, a Igreja tem o dever de pronunciar-se contra tais atitudes, pois, do contrário, ela consente com o crime praticado. Assim, quando se fala da “confissão da Igreja”, após se constatar que ela esteve ao lado de quem mata e não de quem é morto, então se tem em mente a necessidade de a Igreja confessar a sua culpa. Ou seja, confissão não é nesse momento o anúncio público da fé em Cristo, mas confissão é, em tal contexto, confissão de pecados! A Igreja cristã, durante a Segunda Guerra, havia pecado, também a Igreja no Brasil! Nesse sentido, quando a IECLB se intitula “de confissão”, é porque ela se sabe comprometida com o anúncio do Evangelho em terra brasileira, mas, acima de tudo, ela é uma Igreja que se sabe pecadora. Ela é uma Igreja que confessa a sua culpa perante Deus e perante o mundo, buscando no amor de Deus o perdão e as forças para continuar fiel ao seu Senhor Jesus Cristo. A IECLB é Igreja Simul justus et peccator! Evidentemente, a pesquisa sobre a formação da IECLB não pode ser encerrada com esse trabalho. A releitura da história é fundamental para a constituição de uma identidade, isso vale para indivíduos, instituições e Igreja. A IECLB somente encontrará a sua identidade na medida em que buscar por ela. Nesse processo de busca por identidade, caberá a novas pesquisas, por exemplo, perguntar pelo pano de fundo histórico das comunidades ou o “subterrâneo religioso” (Oneide Bobsin) com possíveis pesquisas de campo. Também uma leitura de todas as edições dos jornais sinodais da Assoc. Evang. de Comunidades (Mensageiro do Evangelho) e do Sín. Evang. Lut. (Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt) ainda é necessária. Além disso, carece-se de uma pesquisa mais detalhada e com recurso a mais fontes sobre a união da Assoc. Evang. de Comunidades com o Sín. Evang. Lut., ocorrida em 1962. Termina-se esse trabalho com o desejo de que a IECLB e os seus obreiros e suas obreiras possam ser testemunhas fiéis do Evangelho de Jesus Cristo na realidade brasileira, procurando no diálogo fraterno, na aceitação mútua e na reflexão sobre a própria história ser Igreja a caminho e no caminho do Reino de Deus. Bibliografia 1. ASSEMBLÉIA Geral Extraordinária. Mensageiro do Evangelho, Rio do Sul, 15 set. 1962. p. 3. 2. AUFRUF für die Deutsche Woche in Curityba vom 24. April bis 2. Mai 1937. Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt, Joinville, 1. Apr. 1937. p. 27. 3. AUSZUG aus dem Protokoll der 19. Synodalversammlung der “Deutschen Lutherischen Kirche in Brasilien” im September 1936. Evangelisch-Lutherisches Gemeindeblatt, Joinville, 1. Okt. 1936. p. 75-77. 4. CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia Científica. 5.ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2002. 5. DIE FUSION. Mensageiro do Evangelho, Rio do Sul, 15 mai. 1962. Aus der Synode, p. 13-14. 6. 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| Última Atualização ( segunda, 15 de outubro de 2007 ) |
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